domingo, 6 de janeiro de 2013

Carta ao Pescador


Ah, Pescador... Esses teus olhos de mar, essa tua alma de fragata, vem me invadindo. É uma saudade longa e cansada essa, que os teus olhos fizeram. Mas me invade mais! Chega pra perto e repousa desse mar bravio e ingrato que avida tem sido.
Me conta de novo as tuas histórias de outros mares regadas a Whisky e água de coco. Me fala dos peixes imensos, dos naufrágios... Me apavora com as sereias e seus cantos, e me encanta com os mares abertos em pleno fim de tarde. Diz pra mim dos teus feitos heroicos e da tua falta de cautela... E me faz rir sempre. E ri do meu riso. E me desentende.
Não, não se vira! Essa minha cara de espanto é só o desconcerto que você me traz. Essa minha mudez é só embaraço. E as poucas frases tontas que me escapam cambaleiam tanto e tem tão pouco sentido em virtude da embriaguez que me causa essa tua presença.
Fica mais, se demora, e apaga a luz para que não se veja mais ninguém. Me dá palavras tuas para eu brincar de encaixar, enquanto tua mão desliza pela minha perna e se recolhe, incompreendida. Me dá tua mão, e dá se inteiro.
Aonde tem gastado suas redes, Pescador? Quantas ainda lhe restam? Tens mais histórias que redes... E a vida está entre essas duas medidas. A vida é uma corda bamba, viver é um equilíbrio e a felicidade é uma forma de se caminhar. Pé ante pé, onda ante onda, prossegue.
Ah, Pescador... Me fala mais de tudo no que você quer que eu acredite, pra que eu acredite em tudo o que eu quiser, numa teimosia tão prepotente que torna-se doce. Num gesto impávido, que é uma ternura que se disfarça pra não sofrer.
A tua imaginação, as tuas idéias, os teus prodígios... As tuas escamas eu vislumbro uma a uma com os olhos aguçados aos sentimentos alheios. E te leio, em meio ao cintilar de tuas formas, sem que você permita.
Pescador, Pescador... Devo lhe contar umas e outras também: Me lancei ao mar para que me buscasse. E na ânsia frustrada de te alcançar, me fiz um peixe. O mais dourado! E deixei-me fisgar. Me vejo em tuas mãos quentes antes que eu mesma possa medir o tamanho da minha decisão.
Servida sobre a tua mesa; no teu aquário particular ou a venda, numa feira qualquer, exposta aos olhos de qualquer um que não seja o pescador. Já fiz-me peixe, já fiz me presa, já fiz-me sua. Pousa-me onde lhe aprouver, Pescador. Pousa-me onde lhe aprouver.