segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


Hoje eu te vi na rua. E você nem sabe! E mesmo na sua ignorância, senti o coração confortado.
Vi tuas iniciais estampadas em um muro qualquer. Vi os teus olhos numa criança que passou correndo e reparando demais na vida pra reparar em mim. Seu sorriso voou do galho mais alto e foi brincar no céu. Foi palpitando, trêmulo, pra fora de mim. Sua mãos tocaram meu rosto no vento macio, brincaram nos meus cabelos e correram lascivas pelas minhas pernas. E seu abraço veio me envolver quente e manso num súbito raio de sol entre as folhagens.
Hoje eu te vi na rua. E você nem sabe.

Manual para namorar

Ame meus passos, e minhas pausas também. Escute meus medos com cuidado e trate meus anseios com carinho. Ceda. Me faça ceder. Me abraça com a mesma foça e vontade que as tuas mãos se prendem a minha nuca. Me olhe nos olhos. Mas olhe pros meus peitos também.
Sinta saudade e ligue. Mas... Não ligue também. Saiba sempre. quando não souber, finja saber e ria da minha ignorância. Mas ria sempre com carinho, e me acolha, manso, no seu colo.
Aprecie quando eu for terna. Entenda quando eu não for. Entenda meu ser de porcelana e minha existência de ferro. E entenda, também, quando eu não souber mais o que ser. E os meus antagonismos todos.
Me leve pra longe, me traga pra perto e me faça dormir sorrindo.
Por fim, ame o meu sorriso. Mas, muito mais, me ame quando eu não puder mais sorrir.

domingo, 2 de dezembro de 2012




















Tantas palavras, mas tantas... Que me escapam. Dissolvem-se no céu da boca, que é quase um algodão doce, e na hora em que as mais preciso, me são furtadas. Ou até, por vezes, se colocam propositalmente umas na frente das outras e me fazem tropeçar no discurso. Elas brincam comigo, como todo mundo faz. Fazem-me de tola diante dos olhos mais esperados e dos juízos mais afiados.
Que querem as palavras dessa vez? Que querem elas sempre?

As mãos


Algumas vezes, sem hora marcada ou permissão concedida, umas mãos precisam de outras. Vem de um sentimento frágil (próprio de quem é feito de porcelana por dentro) e culmina na ponta dos dedos e no canto dos olhos.
Nas extremidades dos braços elas oscilam  e se embolam nelas mesmas em pequenos movimentos incertos. Tudo porque ali falta um outro par de mãos, que as tomaria como duas conchas a muito custo encontradas em uma praia deserta. As acariciaria como quem nutre o amor incondicional pela pelúcia de um ursinho da infância. As beijaria com o zelo de um pai e a intensidade de um amante. O carinho daquelas mãos seria suficiente para amar um corpo inteiro.
Se um dia tuas mãos forem necessárias, se um dia um par de olhos umedecidos pela tristeza procurar os teus pedindo, caridosamente, um par de mãos, não nega, não se demora, nem pestaneja: pega aquelas mãos oscilantes, com zelo de pai e intensidade de amante e as beija. Dá as mãos e dá-se inteiro. E antes que os lábios se descolem das duas conchas encontradas a muito custo em uma praia deserta, um corpo inteiro, agora amado, trará em cada gesto e em cada traço a paz singular das mãos preenchidas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As cartas

Quero um dia enviar todas as cartas que eu tenho guardadas num nó, aqui, no meu peito, que foram escritas pelos meus silêncios. Vou jogar debaixo das portas, pelas ruas, pelos corredores e pelos espaços públicos todos. Os detalhes mais sórdidos serão a ordem do dia. As dores mais contidas vão chocar os desavisados e  todos, todos os segredos do mundo ocuparão os olhos dos passantes.
Serão milhares delas ocupando as ruas, pra quem quer e pra quem não quer ler.
Queria ver os rostos...
Alguém que nem sabe quem sou eu vai se ler nas minhas linhas e vai chorar o cansaço pungente que só nós dois sabemos que existe. A mãe zelosa vai arrancar o papel das mãos da menina inocente que ainda nem sabe que é igual a mim e vai dizer "Isso não é coisa pra você!", com um olhar de censura e constrangimento.
As folhas vão ser levadas pelo vento e, mais dia menos dia, vão alcançar os corações dos destinatários. Talvez já estejam velhos quando as notícias chegarem... Ouviram dos netos as palavras que eram pra ter sido ditas muitos anos antes. Talvez morram ali mesmo. Alguns não vão querer nem ler só de saber do remetente. Outros pegaram as cartas na ponta dos dedos, e com ternura vão desembrulhar o envelope. Vão ler com a cautela de quem lê uma carta de amor. Vão fechar os olhos, lembrar das coisas e uma lágrima, muito tímida e pueril vai lhes escorrer pelas bochechas, fazendo um desenho onde se pode ler com certa clareza a palavra nostalgia. A surpresa vai ser tão grande para alguns que a voz lhes faltará, e não sairá nem riso, nem choro, nem grito... Só silêncio. E eles entenderão o que é silenciar. Os últimos, não se surpreenderão. Vão ler como que lê no jornal que o preço da gasolina subiu e a educação vai de mal a pior. Eles já haviam me lido muitas vezes, nos meus silêncios, e eu nem percebi. Vão esboçar um sorriso de quem diz "Eu já sabia", e vão guarda-las no bolso.
Me pergunto se haverão respostas ou manifestações de qualquer espécie... Acho difícil. Quase ninguém sabe me encontrar. Meu endereço é mais secreto que todas as letras, as cores e os cheiros daquelas cartas, e esse eu estranho que mora dentro de mim faz questão de que seja. Morreram elas todas como monólogos de alguém que precisava sanar o silêncio.
Na minha covardia, torço pra que cheguem a tempo. Tomara que escapem de mim, pra que eu não tenha que esperar a coragem chegar. Ah, a coragem... Nos dizemos melhores amigas. Pintamos os mais belos quadros... Mas ela ri de mim, porque sabe que, na verdade, fujo dela como o diabo foge da cruz, e finge que não sabe que eu estou escondida de baixo do cobertor, no meio da noite, com medo dela me pegar.
Mas eu queria tanto, tanto que ela me furtasse essas frases todas. Elas enchem meu coração, transbordam pelos meus olhos e não dão lugar a minha paz.
Mas, mesmo que a coragem esqueça de mim, eu, euzinha, eu mesma, mais dia menos dia saio de baixo das cobertas e vou, com uma blusa bem engomada, laço de fita no cabelo, meia calça branca, saia jeans sem bolso e sapatos de verniz com direito a lacinho e tudo, enviar todas as cartas que eu tenho guardadas num nó, aqui, no meu peito, que foram escritas pelos meus silêncios.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Engano


Eu quero é reescrever a história.
Porque essa que eu tenho aqui...
Está muito mal contada.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Descansa, minha alma,
Dorme exausta.
Faz da noite o teu berço
E tua cama de núpcias.

Cerra os olhos e sonha...
Sonha bem, que a noite é
curta.

Esquece do teu corpo,
Manchado,
Das tuas mãos sujas
e dos teus pés cansados.

Corre sem pés e escreve
Sem mãos.
Sê livre de mim,
minh'alma.
Do pior de mim.

Repousa - eu lhe imploro
Repousa,
Que eu me mantenho em vigília
Pela tua paz.

Aproveita cada centímetro sem tamanho
Dos teus lençóis macios.

Mergulha desse travesseiro,
Como que sem volta.

Esquece da idade,
Do tempo, e sai voando!
Deixa tudo para trás,
E vive só!

E não se inquieta
Que a tempo,
E antes do tempo,
O sol vem te chamando -
Manso e forte.

Quando for hora de viver,
saberás.

Mas não pensa,
por hora, e nem anseia!
Não perde a tua noite conflagrada.

Cerra os olhos, e sonha...
Esquece do teu corpo...
Descansa, minha alma.
Dorme exausta.
É como se eu estivesse vivendo, e, um dia, sem mais nem menos, eu dormi. Para não acordar mais!- e eu não falo de morte. Tudo é, de uma hora para outra, uma coletânea de sonhos - bons, ruins e mornos - que aleatoriamente me atravessam.
É como se eu estivesse caminhando na pacata e familiar rua, quando de repente, começo a pisar em nuvens fofas, e não há mais rua. Pra não fazer feio, fingi que entendi e prossegui. Não entendo nada! Tudo é presente e incognoscível... E são tantas essas nuvens... Que eu não enxergo. Esfrego os olhos o tempo todo: o erro deve estar em mim. E a minha casa? Onde está a minha casa? E os meus braços? E os meus abraços...?
Caminho, caminho... E o caminho é um sonho que tem cara de coisa eterna. Será que eu não falo mesmo de morte?
Eu só sei que eu vivia. E era bom. Foi o tempo eu que eu sentia os pulmões plenos e o coração batendo num samba insuportavelmente feliz. O sangue fervendo, correndo até os fios de cabelo - coisa que era só minha. Eu tinha olhos - olhos de verdade! - desses que vêem outros olhos, vêem outras almas e falam com os sentimentos alheios.
Hoje eu tenho só um umbigo horroroso; dois pés de soldado - resignados como todo bom oficial - e um par de mãos geladas. E essas nuvens.
Na rua, eu parava pra observar as nuvens: sempre distantes, amorfas e macias. Eu as queria, sem tê-las. Eu almejava as nuvens... E hoje elas me sufocam. "Eu odeio as nuvens! Que lente torpe me fez almejar as nuvens?! Malditas sejam as nuvens... Malditas sejam as lentes..."
Sinto saudades da rua. Dos sapatos gastos, e das meias engolidas. Lá havia minha casa... Lá era minha casa.
Eu almejava as nuvens, mas amava a rua.
E dela agora eu guarda uma lembrança nebulosa e uma - quase morta e bem fraca - esperança de retorno... E um umbigo horroroso... E dois pés de soldado... E um par de mãos geladas...
Será que eu não falo mesmo de morte?