segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Coração de passarinho



O grande problema
Do coração de passarinho
É que ele nunca fica...
Mas quando fica, faz ninho.

Faz casa, quer morar.
Não sabe a hora de ir embora.
Só sabe viver de agora,
Nem de depois, nem do passado.

E quando enamorado,
Coitado, coitadinho...
Fica dependendo do ninho
E esquece o porquê da asa que tem.

Desaprendido de voar
Quando é hora de ir
De alçar voô, de partir
Ele cai e se magoa.

Parece que foi a toa
A contrução do novo lar.
Machucado, sem outro caminho,
Reaprende como voar.

Entre o medo e orgulho
Se pega de novo sozinho.
Forte, decidido, seguro
Grita: Não haverá mais ninho!

Até que, novamente
Quando as asas começam a cansar
Surge um galho gentilmente
Oferecendo lugar pra pousar.

Vai, passarinho.
Pousa de novo, e reconstrói tua casa,
Mas já deixa pronta tua asa
Que lugar nenhum é pra ficar. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Última lágrima


Às vezes aperta. 
Mas é só às vezes.

O coração vai ficando pequeninho 
e vai transbordando lembrança pelos olhos.
As coisas boas parecem que vão embora 
e as ruins,
fazem a festa.

Nessas horas é que eu lembro
que gente feliz também fica triste.

Fica faltando alguma coisa 
que eu não sei bem o que é. 
Fica faltando alguma coisa que deveria ter ficado.

Ou melhor...
A bem da verdade
É que a gente sabe que nem devia ter chegado,
que foi tudo um equívoco.
Que a solução é deixar ir
(mesmo soluçando entre um apelo e o outro).

Mas tem essa coisa irracional e burra dentro da gente, 
e a gente se pega dizendo: 
“Fica.”

O resto da gente
– a parte que pensa –
bate na testa e diz:
“Olha ela, fazendo besteira.”
Mas a gente não escuta, e piora:
“Fica, por favor.”

Chega uma hora que essa coisa de “Fica” cansa
e a gente vai embora.
Chega uma hora que chega 
se não a gente vai morrer
de tanto procurar o amor
aonde ele não mora mais.

Mas aí é tarde...

Já doeu.
Já sonhou.
Já pensou nos planos,
nos filhos e nas viagens.
Já disse até “Eu te amo”.
Nossa... Muito “Eu te amo”.
Já dormiu junto.
Já acordou junto sorrindo,
e já quis isso pra sempre.
Já prometeu um monte de coisa
que vai ficar na história 
ou no esquecimento.
Já machucou
e se deixou machucar.
E já se esqueceu do orgulho.

Já se fez de tudo,
muito mais do que se devia.

Sobraram os dois,
cada um no seu canto.
Sofrendo de um jeito que o outro nunca vai saber,
e se convencendo de que sofre muito mais.

Quando me falaram do amor
esqueceram de mencionar como ele dói
quando tem que ir.
E que quando ele vai
as lembranças gostosas ganham um sabor amargo
e se transformam em espinhos.
Se cravam com força no peito da gente.
Dói demais...
Talvez por saber
que não haverão mais lembranças gostosas.

Mas tudo isso passa.
Até esse nó imenso na minha garganta,

cheio de coisa pra dizer.

E a vida continua.
Essa coisa toda cicatriza
pra lembrar que foi dor,
mas que já foi embora.

E é muita tolice,
com tanta coisa pra fazer,
ficar fazendo drama 
e escrevendo poema
por causa de amor.

Me diz: 
o que é que a gente sabe do amor?

Só que é essa coisa gratuita e imensa,
que vai embora se for preciso.
Que vai continuar amando
(mesmo indo embora)
e que quando falta, aperta às vezes.

Mas é só às vezes.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os sonhos


Os meus sonhos... Os meus sonhos são tão lindos... Eles falam de nós, e dos tempos bons. Eu lembraria de todos, se fosse possível, e viveria um milhão de vezes cada um deles... Te amando em todos (mesmo quando dói, e mesmo quando eu não sei). Quem inventou essa coisa de sonho entende bem disso de amar as coisas impossíveis. Só uma dor pra entender a outra... Só um sofrimento pra inventar um alivio... Sem sombra de dúvida, esse alguém entende tudo de amor.
Que delícia são os meus sonhos... Sonhar com você só não me entristece quando eu acordo porque alegra a minha realidade na esperança (ingênua e pueril) de encontrar o seu amor perdido no meio do caminho. E os seus olhos... Os meus sonhos são bonitos que nem os seus olhos, quando eles se fecham de levinho pra rir. São bonitos que nem as nossas manhãs de domingo e os beijinhos na ponta do nariz. Bonitos iguais as cores da nossa pele, que combinam.
Queria que você entendesse a alegria dos meus sonhos, mas nem que eu explicasse e contasse e dissesse de todos os modos possíveis você entenderia... Você não entende muito essas coisas dos poetas, e do quanto elas estão longe da razão... Ainda assim, eu amo a sua razão que é tão maior que a minha. Também não posso aprendê-la por inteiro, porque é sua. E, por isso, a gente devia se amar... Que nem nos meus sonhos. Pra cuidar um do outro, pra ensinar e pra aprender o que der. Pra ser melhor e ser feliz, sem precisar e com muito querer.

Mas não é assim... E então eu sonho. E tudo está lá... E a realidade é menos sozinha... E você sorri comigo. E eu acordo pensando todos os dias: "Os meus sonhos... Que lindos são os meus sonhos.

As outras



Você pode até achar
Uma ou outra alegria

Em corpos mais bonitos,
Em amores menos doídos

Em sonhos mais baratos,
Em solidões menos sofridas

Em sorrisos mais pintados,
Em liberdades menos divididas

Mas escute o meu silêncio tranquilo
Que te diz:

"Você não vai achar pra amar
Em nenhum outro lugar
A minha poesia."

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pra não deixar ir


Vem me salvar das minhas ideias loucas e da minha meninice, que eu não tenho prudência e nem documento. Me salva também dessa saudade que me visita sempre, e que só vai embora quando você chega. Antes que, tarde demais, minhas asas batam de pressa e eu saia voando por ai.
Sabe, isso de ir embora é muito perigoso. Às vezes, eu esqueço o caminho de casa, e tudo parece muito distante, e eu me sinto só. Como naquele dia na praia, que eu fui pro mar sozinha e quando me dei conta estava muito longe da areia. Eu tive medo. Nadei de pressa. E não quis mais ficar sozinha no mar. Depois eu olhei de novo, e o mar era tão bonito... Que eu fui. E tive medo. E fiquei só. E voltei. A cada dia que passa eu tenho a impressão mais forte de que um dia eu vou pra não voltar, porque a solidão é uma dor que seduz a gente. E a melancolia às vezes é bonita, que nem o mar. Mas, por favor, não deixa nenhuma distância ser pra sempre. Eu preciso nadar, e voar, e ir... Mas preciso voltar também. E isso eu não sei. Se eu começar a me demorar, me busca, e nada comigo se for o caso, que eu sou muito menina ainda. E vou ser muito menina pra sempre. Mal caibo dentro desse corpo de mulher, e não pretendo caber. Minha vida inteira é não caber, porque é o meu excesso que me move. Me protege do meu excesso também.
Me salva do meu riso frouxo, da minha tranquilidade e da minha inconstância. Me salva dessa prisão que eu chamo de liberdade. Estou com as mãos atadas às minhas ideias malucas, muito mais que às minhas vontades. Me lembra de vez em quando que nem tudo é uma poesia, e que pés no chão, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém, só aos sonhadores. Quando eu rir de você e te deixar perdido, não desiste de mim. É meu jeito de ter medo e de manter o coração encoberto pra não deixar ninguém ver o que tem dentro. Talvez seja bonito demais pra entender, ou triste demais pra se ver, ou complicado demais pra se amar... É melhor esconder. A propósito, me convença do contrário. Eu vou usar a voz, o corpo e a alma e vou trocar os seus pensamentos de lugar, mas é tudo de brincadeira. Ainda sim, você vai ficar bravo. Se eu te deixar bravo, como sei que vou deixar, briga, mas briga com amor. Se eu chorar, fica triste, mas não mostra. Não deixa o meu carinho te fazer esquecer depois. Me ensina a ser melhor que eu te ensino a balançar nas árvores, a escrever poesia e a pintar um monte de coisa bonita.
Podendo ser dois, escolha ser um só, e vamos, porque a vida não espera. Me salva, que eu te salvo também. É só querer, e amar. Vem de pressa, antes que, tarde demais, minhas asas batam de pressa e eu saia voando por ai. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Boemia




Uma cerveja gelada
Um fim de tarde bem quente
Uma meia duzia de gente
(Da minha gente, é claro)
E um cigarro de artista
Que hoje a tela é a vista, e tudo o que ela não alcança.

A noite, não tarda, começa
Recomeça

Como toda noite
Nos arcos da lapa:
Incessantemente bonita.

Um gole. Um trago.
Tudo pra hora passar.
Mas ela não passa.

Estar ali e não estar, dá no mesmo.
E ainda sim é preciso,
E eu acabo rindo, mesmo quando dói,
Porque eu preciso dessa beleza.
Uma beleza melancólica,
Dessas que não pode se dizer que se aprecia.
Tem cara de companhia,
Mas é uma solidão acompanhada.

Ossos do ofício
De ser solta no mundo.

Mais um trago. Mais um gole.

"A noite, não tarda, começa."

Fim


Quando pôs a mão sobre a maçaneta esperava sentir um puxão no braço. Estava tão certa de que ia ouvir aquelas coisas – “Impulsiva!”;  “Leviana!”; “Você não sabe de nada...” – que achou por bem se adiantar no personagem e fazer o que se esperava: levantar e ir. Ir convicta de que não voltava. Ir pra voltar sempre. E ir de novo. E voltar. Ir pra não ser nada de propósito. Porque não era. Não era covardia. Não era medo. Nem insegurança. Era assim, e só. Se fosse pra ser alguma coisa, era paixão. E era tanta, tanta, que eles explodiam, às vezes, só pra recolherem os caquinhos juntos e se amarem mais depois. E nem nas brigas, nem nos gritos, faltava amor.
Mas dessa vez, depois de tanta outras, nada explodiu. Nada saiu do lugar. Um silêncio sepulcral tomou a sala. Alguma coisa acabara de morrer ali... Vazio. Sentia tudo vazio. Não havia som, e nem ela, e nem ele... Ela se viu pela primeira vez sem poder reclamar de “Nós”. As paredes se tornaram estreitas, o cobertor encurtou, a cama diminuiu, e já não havia espaço pra “Nós”. Deixavam de ser um. Agora existia ele, cansado. E ela, cansaço. Ele, que não tinha tempo pra isso. Ela, que tinha. Tinha tempo pra chorar de amor, e pra sonhar as coisas. Tinha tempo pra não saber. E ele não. Os relógios, os passos, os espaços... Tudo dessincopou.
Uma lâmina fina no meio do estômago, um aperto no peito e algumas lágrimas secas: aquele momento triste em não há absolutamente nada a ser dito, e há muita, muita coisa pra ser aceita. O coração que queria se jogar sobre ele e se esfregar contra as cinzas do que não havia mais cedeu à razão e se recolheu pequeno, onde nem ela mesma pudesse ver.
Não queria virar. Ele estaria certamente de costas, mais preocupado com a partida de futebol que com a partida dela. Não era a primeira vez que ela estragava o amor, sabia como funcionava. Não fazia força sobre a maçaneta também. Até porque não tinha. Só esperava o  tempo voltar. Se voltasse, talvez não deixasse o amor morrer. Se voltasse e parasse na frente da praia e no meio das luzes, no dia que ele disse que ela era uma mulher incrível... Ou se parasse nos olhos dele na época em que dali dava pra ver um mundo inteiro mudando quando ela estava por perto; onde moravam histórias pela metade, planos, tristezas, incertezas, e até os filhos que ele nunca teria... Se parasse quando o coração dela parou porque ele estava longe, e ela fingir que não viu... Talvez fosse suficiente. Talvez. Tudo estava tão perto... Ela só queria ajeitar as coisas. E pedia, e dava mil razões, e suplicava... E suplicava... Mas o tempo não ouvia. Estava muito ocupado se preparando pra curar feridas.
Os segundos se tornaram minutos lentamente... E a vergonha de estar parada ali só não era maior que o amor que ficou sozinho dentro dela. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quisesse, ela voltava. Mas nada. A condenação da ausência ecoava pela sala. A mão que segurava a maçaneta foi se apertando, até que o silêncio foi quebrado pelo som da porta, e tudo dentro dela foi se quebrando pela rua.
Ouvia o vento soprando entre os cacos e as partes desfeitas. Deixava o rosto secar. Tentava esquecer o que deixava pra trás. Lembrava mais ainda. E chorava, chorava... Não porque deixou alguma coisa importante, ou que não devesse ter deixado... Chorava pelo que não havia mais e pelo silêncio. E também porque é muito ruim não ser mais amor, mas, pior que isso, é ser cansaço.
A rua continuava, como sempre, e a vida também. Dessa vez, continuava diferente. Queria muito ser forte e acreditar nas desculpas que ela mesma dava. Queria caber de verdade dentro do sorriso costurado no rosto. Tinha medo de querer as coisas, porque tudo que pensava em querer, de repente, não era mais. E quando as coisas não são mais, elas costumam doer. Era mais fácil, e menos doloroso, ser o que ela não queria.
Tudo ficou desengonçado por muito tempo, e a solidão conseguia incomodar mais ainda quando estava acompanhada. O coração se escondia tão bem que ninguém o via sangrando, e ela ria alto pra calar o próprio choro. Ria o tempo todo. Perdidas entre os copos de cerveja e as pontas de cigarro ficavam as lembranças. Lembrava-se da sala, e do silêncio. Lembrava-se das coisas boas também. Se perguntava se ele ainda estava de costas... Se deu uma espiadela pra vê-la partir... Se sentiu dor alguma vez. Mas nada disso importava muito. Não havia mais nada ali, e por isso ela foi. Foi quase por inteiro. Restaram alguns cacos no chão, uns pijamas no armário... E um pedaço que o coração deixou de si mesmo em cima da maçaneta, esperando pra ouvir se ele chamar. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quiser, ela volta.