domingo, 23 de junho de 2013

O que não sabem



Existe tanto silêncio em tudo o que eu digo que até as cordas do meu violão soam mudas de tanto falar do que me falta. E existe tanta tristeza no meu sorriso... Que ele nem é mais meu.
Está quente lá fora, e em todos os lugares fora de mim. Mas aqui dentro esse frio imenso me torna imóvel: emudece meu grito, enxuga minha lágrima e pinta o meu rosto como os rostos dos palhaços do circo, que parecem amar sempre.
Ah, se todos soubessem que é de amar sempre que o meu coração está cheio d'água... Se todos entendessem que eu já não caibo em nenhum abraço... Ah, se eles soubessem... Mas não sabem. E nem querem. Se bastam dentro de suas imaginações inférteis e julgamentos comprados e se vestem de gente muito mais feliz do que eu... E como uma estátua sem alma que eles querem que eu seja, assisto tudo sorrindo. Vou fazendo malabarismos com as palavras e os sonhos pra demonstrar alguma destreza.
E de irreverência, de independência e de liberdade é que eu construo a minha própria solidão. Entre as pessoas e as saudades o tempo vai escorrendo lento e deixando um rastro de flores aonde quer que eu passe.
Com um feixe de histórias amarradas no colo, uma fita presa nos cabelos e muito, muito sentimento eu me pego sentada na porta da rua, assistindo a vida passar. Vai sambando, contente, avenida a fora. Ela canta tão alto, mais tão alto... Que ninguém escuta quanto silêncio existe em mim, em tudo o que eu digo e em tudo o que eu não digo. Nem mesmo eu mesma... Nem o mais próximo... Nem o mais distante. Nem as cordas do meu violão, que já soam mudas de tanto falar do que me falta.

Esquecimentos


Estive andando pela rua, chutando umas folhas secas, e lembrei que esqueci do meu coração no peitoril da janela, esperando você chegar. Deixei também o fogão aceso, porque a sua ausência não estava pronta pra existir quando eu sai, e resolvi deixar cozinhando. Acabou passando do ponto, e foi junto com o fogo se alastrando pela casa e pelas faltas que você me faz. Não restou nem a lembrança do último abraço pra contar a história.
Não sei se eu quero voltar pra tentar apagar o incêndio... Alguma coisa em mim quer essa chama acesa, porque é a única coisa que me aquece - mesmo que eu tenha que lidar com as cinzas depois. Mesmo que tudo fique sem cor. Mesmo que não sobre nada de mim.
Eu queria dizer que a minha mão sem a tua sabe o que faz, mas eu não posso. Porque você vê as minhas obras tortas. E as rosas que eu pinto estão sempre descontentes.
A minha cidade é barulhenta enquanto tudo aqui dentro silencia, com medo da música errada virar o seu nome. São silêncios finos esses que tecem os meus dias. São as pausas entre as minhas palavras e os pequenos deslizes dos meus sorrisos. E eles vão se entrelaçando sem que eu mesma eu dê conta. E quando me dou por mim estou lá eu, vestida com a fantasia que o meu próprio medo fez.
A vida não pára, não cansa e não perdoa. Me engole, me digere e não tem pena de mim. Me joga de um lado para o outro, e te põe no meu coração sem me perguntar o que eu queria.
Estive andando pela casa, lendo os meus olhos tristes, e me lembrei que esqueci os seus olhos dentro dos meus, esperando, quem sabe, o amor, mostrar que sempre esteve lá.