quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Ismália
Fechava os olhos com força a apertava as cobertas contra o nariz e as bochechas. Tudo que queria era uma noite eterna, com muitas estrelas no céu e sonhos igualmente eternos. Queria voar para a lua, cair da lua e encontrar o colo dele pra rir, semicerrar os olhos e dizer: "Eu caí!". E asas! Um par branco, felpudo e macio de asas como as de Ismália, pra ruflarem de par em par. Uma alegria deslisando no céu e tocando com a ponta dos dedos o mar tranquilo, e muitas história pra contar. Uma luz tênue e tranquila que só a noite mais pura e desnuda pode oferecer... A nudez das palavras ditas e não ditas, mas sempre sabidas (a cor pálida do silêncio incomodava a vista).
"Saiam, tristezas! Saiam todas! Pensamentos livres, invadam-me!", dizia. E gargalhava, porque tudo é sempre lindo, e porque a existência tinha esse péssimo hábito de fazer cócegas (muitas vezes mal interpretadas) em horas inconvenientes.
O ar chegava doce e invadia sua garganta. Um friozinho gostoso surgia e dava vontade de respirar mais fundo. O fundo do mundo estava ali, inteiro, nos seus pulmões. Enchia-se por completo.
E mais gargalhadas... E mais risos sem hora pra acabar... Deixou a solidão sozinha e foi dançar na ponta dos pés. Cantava a pleno coração e se emocionava com a própria vontade de viver. Existia. No meio da cidade, e das voltas, e dos medos ela, enfim!, existia. E como era bom ser.
Reclinava a cabeça tranquila sobre o peito da vida e dormia, sorrindo sempre.
Ainda amparada pelo frescor da brisa noturna e pela ternura das nuvens azuladas os braços e as pernas começaram a ficar quentes e um clarão sem fim invadiu a janela. Ainda havia janela? Já não se lembrava da vida antes do céu.
Não, não queria abrir os olhos. Isso seria deixar a noite escapar... Os sonhos, desejados e eternos, escapariam. Os risos, a lua, as asas... Mas a essa hora, o sol já gritava, deixando tudo com um ar turbulento e branco. A realidade, inimiga declarada da existência, veio lhe puxar as cobertas. E os olhos se abriram. E ela se abriu. E a gravidade voltou a pesar sobre o corpo e sobre a alma.
Levanta-se. Veste-se. Convence-se: é hora de deixar de existir.
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