sábado, 6 de julho de 2013

As cartas e os olhos



Cuidado com a tua escrita, moreno. Cuidado com as tuas palavras doces demais. Cuidado com as tuas cartas... Porque, desse jeito, basta um remetente errado e a desgraça está feita dentro de um coração que não sabe amar de menos. Cuidado pra não trocar suas fantasias por sentimentos, e acabar punindo com a dor de um amor de mentira quem nunca mereceu. Sente bem os teus sentimentos antes de dizê-los.
Porque os enganos foram acontecendo... Os dias escurecendo... E eu lendo todas aquelas cartas nos seus olhos, achando que eram pra mim... E eram de todas elas. Menos minhas.Pára de ser só enquanto me olha nos olhos, e pára de sorrir pra minha teimosia. Larga a minha mão e o meu corpo... Porque tudo o que eu quero é permanecer aqui, e tudo o que eu devo é ir embora. Ir pra longe do regaço macio dos seus braços aonde eu dormia, e do som da tua música de noite estrelada. Porque eu passo pelo teu pensamento, mas não é lá que eu moro. Assim como na tua casa, sou mais um transeunte, ainda que o meu coração insista em lhe chamar de lar. Deixa minha vida ir pra onde ela mora. Deixa que minha alma encontre um espaço seguro. Deixe que a minha boca repouse numa outra menos quente e mais tranquila, com mais amor do que paixão. Desiste dessa sua ternura lasciva que me tortura a mente, me agarra pelos ombros e me leva até a tua porta, antes que eu mesma me dê por mim. Desiste, porque o medo que ela me traz me desmonta, e quando eu me remonto está sempre faltando um pedaço. Desiste, porque é doloroso admitir que você é sempre o pedaço que me falta, e eu estou cansada de dor. Logo eu, que vinha lendo todas aquelas cartas nos seus olhos, achando que eram pra mim... E não sabia que eram apenas cartas com ninguém por remetente.