quarta-feira, 7 de julho de 2010

Por favor, onde eu ponho a minha paz?

Todos nós nascemos com uma necessidade básica, que é a de ter paz, e nesta busca pela paz nós precisamos escolher um lugar para deposita-la - a paz é uma coisa muito pesada pra ficar nas nossas próprias mãos. Religião, segurança, paixão, pessoas, sexo, bens materiais, comida, Deus, música... São inúmeras as opções. E o lugar que escolhemos diz muito à respeito de nós e ao rumo que nossas vidas tomam.

Enquanto crianças, de uma forma um tanto quanto instintiva, a nossa paz está no nossos pais (curiosa cacofonia). E na ausência deles, por qualquer infeliz motivo que seja, nós ficamos meio perdidos, zanzando com ela na mão por aí, sem ter onde pôr, e a depositamos naquilo que mas noz apraz ou que mais se assemelha com nossos pais. As vezes, as conseqüencias disso são gigantes, e até irreversíveis (conselho: diante disto, amem muito e acompanhem o crescimento dos seus filhos). Mas, vá lá, enquanto não temos que decidir, é fácil.

Aí, chega a adolescência (um dos meus temas prediletos). O adolescer consiste em perceber que um dia nós vamos ter que tocar nossa vida sozinhos e que esse dia vai chegar por si só, não adianta querer adiantar ou adiar: isso só torna as coisas mais difíceis. Mas nós queremos muito provar logo uma boa lasca da liberdade, e acabamos tropeçando em nossas próprias pernas. É um aprendizado necessário. E nessa ansia pela liberdade, nós tiramos nossa paz de onde ela estava na infância e começamos a perambular por aí procurando o melhor lugar para abriga-la. É árduo carregar uma coisa tão pesada, e temos que apoia-la de tempos em tempos em um ou outro "amigo", numa ou outra coisa. Mas onde deixa-la permanentemente? Onde deixar a paz em paz? Se nós não fossemos tão orgulhosos, ouviriamos os conselhos dos mais velhos que já acharam um bom lugar pra depositar a paz e fariamos o mesmo, mas, nos ainda achamos o máximo a idéia de independer de tudo e de todos (pena que isso é impossível, e nós teremos que descobrir sozinhos). Aqueles que são mais espertos e atentos perceberão que precisamos deposita-la em um lugar consistente, constante e confiável. De preferência, algo infinito. Por que a verdadeira paz é muito pesada (por ser densa de sentido) e infinita. Mais ainda existem aqueles que simplesmente preferem ignorar isso, ou acham que isso é bobagem e preferem construir sua própria paz (finita e mais leve), e aí os resultados são mais diversos, mas todos tem mais ou menos a mesma base: a insegurança. Por que a verdadeira paz esta por aí jogada em algum lugar ou apoiada em algo que, mais dia menos dia, desaba.

Volto ao primeiro parágrafo e ratifico: inevitável a escolha. Podemos adiar, arranjar medidas paliativas, enganar o mundo inteiro... mas só nós samberemos por onde se encontra a nossa paz. Essa angustia, ou essa tranquilidade, é só nossa. Só nós sabemos o que se passa nas nossas cabeças e a quantas andam os nossos corações.

Eu, particularmente, já escolhi onde deposito a minha (sem vergonha nenhuma, e com muito orgulho confesso, meus pais ajudaram).

E você, onde pôs a sua?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

As crianças, as coisas e o espanto

É muito bonito (e clichê) observar crianças. Principalmente quando se tem os olhos já não tão puros quanto os dela. É incrível a capacidade de acreditar, de sorrir, de sonhar e de valorizar o outro. Anliás, não só incrivel como invejável mesmo. Às vezes queremos profundamente ter qualquer uma destas capacidades, mas simplesmente não conseguimos. Somos as mesmas pessoas, mas eu pergunto: o que mudou?
Quando acabamos de chegar nesse mundo, tudo é surpresa, é novo e inusitado. Vejo pelo meu irmão adotivo, que viveu entre os muros de um abrigo até 2 anos de idade, e viu pela primeira vez um bicicleta quando veio à minha casa. Seu rosto diante da janela era o melhor retrato do que se trata o encantamento e a melhor definição do conceito de admiração. É uma experiência singular observar esse processo. Observar a inocência do não-conhecimento das coisas (que se chama infância).
Enquanto crianças, não temos medo de revelar o que de fato o homem é, por isso nos espantamos. Por que todos nós, ao mesmo tempo que tememos, amamos as coisas novas. Fomos feitos para admirar as coisas.
Tudo o que é novo traz este "thaumatzo", este espanto. Nós só desenvolvemos a capacidade de discernir e avaliar o que é bom e o que é mau depois que a surpresa já passou, e nós começamos a conhecer de fato as coisas. Essa passagem maravilhosa, ao passo que dramática, se chama adolescência, mas, isso é assunto para outros textos. e eu acho que essa é a diferença.
Discernir para escolher, conhecer para entender, são coisas maravilhosas, e fazem parte do desenvolvimento da vida. Isso é amadurecer. Mas mesmo diante do conhecimento das coisas, nós não deveríamos deixar de nos espantar. Ao contrário! Deviamos nos espantar mais. Pouco conhecimento nos acostuma a conhecer as coisas; muito, nos traz admiração por conhecê-las. Porque, quando nos acostumamos, a vida perde a beleza.
Meu desejo em relação à humanidade é que, mesmo depois de anos "levando sustos" e observando coisas novas, não deixemos de nos sentar em frente a janela e admirar as bicicletas.