segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Embriaguez

Estava vagando pelo corredor, quando me dei conta de que ele não tinha mais fim... Eu contava dez passos e andava um milímetro. O tiquetaquear do relógio enchia meus ouvidos presos a uma cabeça que tinha vodka demais pra aturar aquela constância... Ainda eram 5 da manhã. Andei mais, vagueei, sentei no chão onde fiquei por mais de uma hora. Consultei novamente meu infortúnio: 5:01. E a uma hora que, eu juro, havia passado ali? "O meu relógio virou conta-gotas de segundos." Veio me a cabeça... Conta gotas de segundos? Que diabo é isso, garota estúpida? Não sei... Só sei que é esse diabo que tem feito dos segundos parados pequenos infernos, cheios de anjos ruins me sussurrando: "Tic.. Tac.. Tic... Tac..."
A propósito, o tique de tremer os joelhos está impossível. Sinto-me estranha. Sinto-me num cantinho bem escuso de mim, que nem eu mesma conhecia. O que me levara até ali? Quantas infinitas coisas me arrastaram pelas pernas? Quem mais conhecia aquele canto de mim?
Não estou tão sozinha quanto eu esperava. Ousaram me descobrir, logo onde eu não me conhecia. Logo, eu, que tenho olhado tanto pra dentro de mim, procurado tanto me enxergar melhor... Vem alguém, e em questão de segundos, me descobre antes. São dois olhos apavorados no fim do corredor, que consultam cada pedaço do meu corpo embriagado e se recolhem, furtivos, em seu apartamento. Tento cuspir umas desculpas e me levantar desengonçada... Já e tarde. Um bumbo forte no meu peito e, mais uma vez, o que eu mais odiava em mim estava ali, bem exposto aqueles olhos, e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. "Quantas vezes mais vou ter que ser descoberta pra, enfim, descobrir a mim mesma?" Chorei. Fazia sentido? Aliás... O que foi que eu disse mesmo? Soluços, muitos soluços bem gordos de tanto comer lembranças... Tapei-me o quanto pude. Que cena ridícula. Que rosto sujo de maquiagem. Que olhar vermelho. Que lágrima torpe. "Ridícula, ridícula!" Eu me repetia diversas vezes.
Cai esperando um colo e me deparei com o chão. Mãos espalmadas sobre a madeira corrida, nariz afundado na poça de fluidos da minha agonia e a lembrança de colo num passado distante "Lenta e calma sobre a terra desce a noite sobre a luz, quero agora despedir-me, boa noite, meu Jesus..." Vovó cantava pra mim. E eu tinha colo. Tinha minha mãe também... E meus pais... E irmãos. Tinha aquela amiga da escola que eu admirava, e aquele menino que eu dizia amar. Onde foram todos? Não, nenhum falecido... Todos distantes. Onde estão? Estariam eles embaixo dessa madeira corrida, ou bem aqui dentro de mim? Todos juntos, numa reunião feliz, com o som tão alto que não conseguiam ouvir aqui de fora a tristeza me matando.
Cai esperando cair em mim a me deparei com o lado de fora: via-me toda inteira. Me percebia como a um ser alheio. "De certo, perdi a lucidez..." Todas as memórias boiavam no álcool que substituira o sangue das minhas veias. Se colidiam, se misturavam, tornavam-se uma: apenas um grande passado, por diversas vezes amorfo. Um monstro incognoscível, ao qual eu amava e temia simultaneamente. Percebi esse monstro com as mãos mais rápidas que a cabeça. Era desengonçado... Tinha um coração que de tão grande quase o explodia em mil partes, e tinha mais alma que matéria. Olhei-o fixo nos olhos marejados e vi nele os olhos de uma criança, ainda suja de tinta como quem acabará de pintar todos os quadros do mundo. Era uma criança tão cheia de amor e sofrimento que se tornara um tanto quanto disforme. Aquela criança não me era estranha. Talvez a vira num banco de praça, numa carteira da escola, ou deitada na calçada. Olhei-o mais uma vez e vi nele a estonteantemente melancólica verdade: "Por Deus! ... Aquele monstro era eu."
Exaurí-me até o último dos meus fios castanhos de cabelo... A verdade me pesava tanto que me fez moribunda. Com o ínfimo filete de energia que me restara levantei trêmula e dirigi-me, enfim, ao vazio e confuso apartamento, cheio de coisas sem sentido, cartas sem dono e recordações dolorosas. E eu meu monstro de mãos dadas chorávamos agora, rumo a cama, o refúgio macio e constante das nossas almas cansadas. Me abraça, meu monstro, tão solitário quanto eu mesma. Me afaga a cabeça, me beija a testa e faz tudo voltar a ser como era antes... Antes que, tarde de mais, seu coração enorme nos exploda em mil pedaços.

Filha dos Tuxauas

Me pesa nos ombros,

Me traz desgosto.

Me pesa no rosto,

Faz a cabeça baixar.



Me faz sentir sozinha,

Uma andorinha sem verão.

Faz pensar que a culpa é minha.

Me faz chorar uma canção.



Me faz oscilar

Entre a saudade e o medo.

Me faz guardar segredo

À sete chaves

[no meu peito]



Me fez perder o direito

De ter a idade tinha.

Faz o corpo sentir como se fosse minha

A idade da voz e do tempo.



Me faz sair do centro,

E me faz perder o eixo.

Me deixa que eu te deixo.

Se você não pode, nem eu.




É o sorriso que me tira a paz,

E é a paz de que preciso.

Em teu olhar, tão verde, deslizo.

E me perco sem volta nem fim.



Sinto em dizer-lhe que é assim

Que a vida vai ser daqui pra frente.

Me pesando no peito e na mente.

E derramando, vez ou outra, uma lágrima.

Cinza cor-de-céu

É uma coisa tão melancólica

Esse vento que balança o véu.

Ele dança e ele canta

Pro cinza cor-de-céu.



Eu abaixo a minha cabeça

e me escondo sob o chapéu.

Eu cruzo os meu braços sob as nuves

Que dão cor ao cinza, cor de céu.



Onde eu tinha um coração latente

Hoje eu tenho a lágrima e o fel.

O tempo seca a veia da gente

E pinta tudo de cinza cor-de-céu.



Agora tá tudo vazio.

Não tem samba, nem festa ou farnel.

Foi tudo no peito daquele

Que dava cor ao cinza cor de céu.



E os meu olhos estão vazios de tão cheios

De tristezas de versos de cordel.

Amarelo, azul, vermelho agora é cinza.

Tão cinza quanto o cinza, cor de céu.

Aparta

Finge que me escuta,
Enquanto eu finjo que lhe falo.
Que depois eu finjo que me calo
Pra conservar a boa conduta.

Engana a vontade de falar-me
Que eu logro o desejo de ver-te.
Que logo se apaga o filete
Da brasa que se alastraria em vexame.

Abafa a alegria do face a face,
E ameniza a força do teu abraço.
Não me deixa sentir que é regaço
O espaço que entre teus braços faz-se.

Disfarça a frustração do teu olhar,
Que eu encubro o meu olhar cansado.
Que eu disfarço o peso do fardo
Que é ouvir tua voz na quebra do mar.

Deixa o vento levar o que lhe atrapalha,
Deixa o tempo passar por cima da imprudência,
Aguenta firme - sei que és forte - tem paciência.
Que a recompensa vem à tempo:
[não tarda, nem falha.]

Dedicado àqueles que me ajudaram a me construir enquanto Maria

Tem dias em que a gente acorda com uma vontade louca de comer biscoitos(geralmente de uma determinada marca nos recorda a infância: hipopós, passatempo, negresco, etc.). Outros em que nós simplesmente queremos chorar, mas chorar mesmo. Ou ver um filme em VHS. Ainda aqueles em que, sem motivo específico, os nossos olhos resolvem brilhar mais que o sol e as covinhas do nosso sorriso vão parar nas orelhas, e nos sentimos responsáveis por toda alegria do mundo. É como se cada dia vivido por uma alma, que mantém sempre uma mesma essência, fosse orientado por uma inspiração diferente. Fosse gerido e sustentado por uma alimento novo. Faz-me lembrar: "o pão nosso de cada dia nos dai hoje". É... essas "inspirações triviais" são tão incompreensívelmente perfeitas, que só podiam vir mesmo de Deus.
Muitas vezes essas inspirações também se dão em relação às pessoas. Isto é, muitas vezes nos sentimos mais próximos de uns que de outros. As vezes, queremos acordar sair de casa e ir dividir um pacote de negresco, chorar no ombro ou assistir um VHS com aquela(s) pessoa(s). E, nessas horas, não importa se é um papo sério ou um bando de abobrinhas; se se dá num restaurante ou caminhando pro ponto de ônibus, enquanto as folhas secas caem ilustrando o caminho. O que importa é a compania da pessoa amiga. Não que ela seja de fato muito melhor que todas as outras. Não que ela - necessariamente - te ame muito mais que outras, mas ela faz parte de você naquele momento, e inevitavelmente estará gravada no seu coração de alguma forma daqui em diante. E é esse grupo específico de pessoas que te faz sentir como uma obra de arte ambulante: com o coração talhado à mão, com todo o cuidado. E te dá, cada dia mais, um motivo pra acordar com as covinhas nas orelhas, ou simplesmente um colo pra ter onde chorar, nos piores dias.
Bem, eu nuca escrevi um texto como esse, nem sei bem como fazê-lo, mas a minha intenção inicial - a que acordou comigo esta manhã - era de dedicar esse texto a todas as pessoas cujos nomes estão gravados, agora e pra sempre, no meu coração. Os motivos para minhas inspirações matinais, e os abraços de que eu tanto preciso. O meu sincero muito obrigada.

Maria Menina

Eu vi passando a menina travessa
Que corre pôr do sol à fora,
Correndo, ventando, ela se demora
Morrendo de amores pelo que lhe é viver.

Se destraia com dos detalhes o menor
E via vida onde ninguém mais via.
"A noite é para ela como o dia"
O pai, rindo, costumava dizer.

Era o alvo de etiquetas de toda espécie:
Desajeitada, atabalhoda, ventania.
Mas se lhe pudesse dar um nome, seria Maria.
Pra sempre rimar com "alegria" no final.

Se lhe dessem asas, voava.
Se lhe puxassem para o chão, não se continha.
Se procurassem lhe encontrar, se escondia
Por tras das diversar artimanhas dela mesma.

Os cabelos anelados lhe emolduram
O rostinho moreno que canta alegria,
Mas num cantinho do olho alegre, jazia
Uma peculiar vontade de ser bem quista.

E ela se fazia de malabarista,
De bailarina, de pintora, de atriz.
De cantora, de escritora, e até, de feliz.
E tentando achar o que faltava, se perdia.

E desse modo a menina viveria
Sem saber como era bom quando era ela.
Cega, julgava que ao do lado de fora da janela
Tudo era bem melhor sem sua presença.

Até que, enfim, o dia chegaria
Em que o mundo perceberia sua ausência
E, encarecidamente, pediria
Que corresse pôr do sol a fora,
Só sendo Maria.

O choro

Choro sim, o choro que for.
Choro de medo, de raiva, de rancor.
Um choro suave ou um choro sem cor.
Seja como for, eu choro.

Choro por filme, por amor
Ou por soneto,
Por dentro, em segredo eu me derreto
E as vezes até muda, choro.

Dispo-me em lágrimas pra não sobrar nada.
E escorre junto à água,
Esvai-se pelo sal,
Todo o vestígio vivo ou morto de sombra ou de mal.

Cansei de reter-me rota,
E é no transparecer de cada gota,
Que trago uma pureza casta
Ao semblante exausto.

E mesmo que me custe a fama,
Que atire a reputação à lama,
Que me deixe vazia a cama,
Cerro os olhos, sem palco, e choro.

Questão

É como contemplar um céu sem sol,
Ou um mel sem docura alguma.
É tirar as pétalas das flores uma a uma.
É ia à pescaria, sem anzol.

É uma dança muda e sem movimento:
A melhor definição de ausência.
É peculiar, é absurda, é carência.
É sentar a beira mar e não ouvir o vento.

Só falta, sem maiores explicações.
Não está, simples e infelizmente.
Quando outrora todo momento era contente,
Agora é espera. Quissá, inquietação.

Se tem valor como nunca antes teve,
Se tem medo de não mais se ter.
Faz questionar: no futuro, o que fazer?
Faz lembrar quão todo passado foi breve.

E quanto mais se sente mais se pensa:
Que seria toda essa insanidade?
Cabisbaixa, admito: é saudade.
É uma dança, muda e sem movimento.

A espera na Rua

Anda, vive, caminha
Roda na roda da minha bicicleta
Desliza na rua concreta,
Vem direta a tua mão, e me toca

Chama os meus olhos pros teus,
E chama o meu nome, bem alto
Me aguarda sentado no asfalto
Que eu já venho - só me faltam uns degraus

Me espera, no coração que palpita
No ritmo da canção que eu lhe fiz
Que o palpitar do teu coração é chamariz
Que eu vejo d alto da minha torre de papel

O teu cheiro apressa os meus passos
E os teus passos meu fôlego furtam
Por teu beijo os caminhos se encurtam
Pra que meus lábios mais curtam os teus

Eu, destraída, pairando pela casa
Ouço o sino do portão que me alerta
Que deslizas na ruz concreta,
Que vem direta a tua mão, e me toca

Interrogações

Quantos anos cabem em três segundos?
Em quantos mundos se pode viver?
As mãos são mais fortes que a mente?
O coração foi feito pra sofrer?

Em quantas palavras se pode dizer tudo?
Será que mudo eu consigo dizer?
Por que os olhos são as janelas da alma,
Por onde eu vejo o que ninguém vê?

Por que a chuva cai quando eu choro?
Por que eu choro tanto e sem porquê?
Por que se eu quero ser rápida, me demoro?
Por que simplesmente não sei o que fazer?

Com quantos amores se constrói uma vida?
Só existe um alguém pra cada "você"?
Como é que eu posso gritar, tão contida?
Como eu posso, correndo, permanecer?

Pra onde eu corro tanto e todo dia?
Será que um dia eu paro de correr?
Como nessa tristeza toda, eu sou alegria?
Por que tudo o que eu penso parece clichê?

Será que eu sou assim, tão diferente?
Há algum mal, pecado, em assim ser?
Por que eu passo pela rua e pela gente
E vejo tudo tão diferente de você?

Eu vejo mais que todos, ou vejo menos?
E por que faz tanta diferença ver?
E se eu não visse tanto, todo o tempo,
Eu perguntaria tanto por que?

Quem sou eu?

Eu sou que nem você, só que diferente. Entende?
Ora, veja: você chora de vez enquando? Pois é, caríssimo. Eu choro também. E aquela gargalhada larga, boa de se ouvir? Eu rio também.
Sou tão de carne e osso quanto você. Triste, nua e crua verdade.
Tenho vontades, tenho medos, tudo, IGUALZINHO a você. Entende?
Mesmo que não seja, necessariamente, pelos mesmos motivos que você chora, que você ri. Mesmo que não sejam os mesmos anseios ou os mesmos medos: feliz ou infelizmente eu sou assim que nem você.
Já fiz besteira, já caí e já levantei. Já falei mais do que devia e menos do que eu precisava. Fiz tudo do ruim e do melhor, do bom e do pior. Machuquei outras pessoas, me machuquei e já ajudei a curar feridas.
Sou humama. Homo sapiens sapiens da pior espécie. Sou feliz. Extemamente feliz. Mesmo quando eu estou triste, eu sou feliz.
Não tenho medo de falar de Deus e da minha religião, nem do quanto eu amo a minha família, nem que eu não sei mentir pra minha mãe (independente da barbaridade que eu tenha feito), nem que eu sou uma romântica incorrígível, que eu tenho um fogo de viver inapagável, que eu sinto um amor inenerrável pelos meus amigos e que daria a minha vida por cada uma deles, sem pestanejar.
Tenho defeitos. Muitos. Que nem você. Sou cabeça-dura, utópica, tosca, tento ajudar demais, tenho preguiça, sou chorona, sou chata e inconveniente. Isso entre muitos outros. Mas, mesmo assim, eu sou feliz. Extremamente feliz. Entende?