quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pra não deixar ir


Vem me salvar das minhas ideias loucas e da minha meninice, que eu não tenho prudência e nem documento. Me salva também dessa saudade que me visita sempre, e que só vai embora quando você chega. Antes que, tarde demais, minhas asas batam de pressa e eu saia voando por ai.
Sabe, isso de ir embora é muito perigoso. Às vezes, eu esqueço o caminho de casa, e tudo parece muito distante, e eu me sinto só. Como naquele dia na praia, que eu fui pro mar sozinha e quando me dei conta estava muito longe da areia. Eu tive medo. Nadei de pressa. E não quis mais ficar sozinha no mar. Depois eu olhei de novo, e o mar era tão bonito... Que eu fui. E tive medo. E fiquei só. E voltei. A cada dia que passa eu tenho a impressão mais forte de que um dia eu vou pra não voltar, porque a solidão é uma dor que seduz a gente. E a melancolia às vezes é bonita, que nem o mar. Mas, por favor, não deixa nenhuma distância ser pra sempre. Eu preciso nadar, e voar, e ir... Mas preciso voltar também. E isso eu não sei. Se eu começar a me demorar, me busca, e nada comigo se for o caso, que eu sou muito menina ainda. E vou ser muito menina pra sempre. Mal caibo dentro desse corpo de mulher, e não pretendo caber. Minha vida inteira é não caber, porque é o meu excesso que me move. Me protege do meu excesso também.
Me salva do meu riso frouxo, da minha tranquilidade e da minha inconstância. Me salva dessa prisão que eu chamo de liberdade. Estou com as mãos atadas às minhas ideias malucas, muito mais que às minhas vontades. Me lembra de vez em quando que nem tudo é uma poesia, e que pés no chão, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém, só aos sonhadores. Quando eu rir de você e te deixar perdido, não desiste de mim. É meu jeito de ter medo e de manter o coração encoberto pra não deixar ninguém ver o que tem dentro. Talvez seja bonito demais pra entender, ou triste demais pra se ver, ou complicado demais pra se amar... É melhor esconder. A propósito, me convença do contrário. Eu vou usar a voz, o corpo e a alma e vou trocar os seus pensamentos de lugar, mas é tudo de brincadeira. Ainda sim, você vai ficar bravo. Se eu te deixar bravo, como sei que vou deixar, briga, mas briga com amor. Se eu chorar, fica triste, mas não mostra. Não deixa o meu carinho te fazer esquecer depois. Me ensina a ser melhor que eu te ensino a balançar nas árvores, a escrever poesia e a pintar um monte de coisa bonita.
Podendo ser dois, escolha ser um só, e vamos, porque a vida não espera. Me salva, que eu te salvo também. É só querer, e amar. Vem de pressa, antes que, tarde demais, minhas asas batam de pressa e eu saia voando por ai. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Boemia




Uma cerveja gelada
Um fim de tarde bem quente
Uma meia duzia de gente
(Da minha gente, é claro)
E um cigarro de artista
Que hoje a tela é a vista, e tudo o que ela não alcança.

A noite, não tarda, começa
Recomeça

Como toda noite
Nos arcos da lapa:
Incessantemente bonita.

Um gole. Um trago.
Tudo pra hora passar.
Mas ela não passa.

Estar ali e não estar, dá no mesmo.
E ainda sim é preciso,
E eu acabo rindo, mesmo quando dói,
Porque eu preciso dessa beleza.
Uma beleza melancólica,
Dessas que não pode se dizer que se aprecia.
Tem cara de companhia,
Mas é uma solidão acompanhada.

Ossos do ofício
De ser solta no mundo.

Mais um trago. Mais um gole.

"A noite, não tarda, começa."

Fim


Quando pôs a mão sobre a maçaneta esperava sentir um puxão no braço. Estava tão certa de que ia ouvir aquelas coisas – “Impulsiva!”;  “Leviana!”; “Você não sabe de nada...” – que achou por bem se adiantar no personagem e fazer o que se esperava: levantar e ir. Ir convicta de que não voltava. Ir pra voltar sempre. E ir de novo. E voltar. Ir pra não ser nada de propósito. Porque não era. Não era covardia. Não era medo. Nem insegurança. Era assim, e só. Se fosse pra ser alguma coisa, era paixão. E era tanta, tanta, que eles explodiam, às vezes, só pra recolherem os caquinhos juntos e se amarem mais depois. E nem nas brigas, nem nos gritos, faltava amor.
Mas dessa vez, depois de tanta outras, nada explodiu. Nada saiu do lugar. Um silêncio sepulcral tomou a sala. Alguma coisa acabara de morrer ali... Vazio. Sentia tudo vazio. Não havia som, e nem ela, e nem ele... Ela se viu pela primeira vez sem poder reclamar de “Nós”. As paredes se tornaram estreitas, o cobertor encurtou, a cama diminuiu, e já não havia espaço pra “Nós”. Deixavam de ser um. Agora existia ele, cansado. E ela, cansaço. Ele, que não tinha tempo pra isso. Ela, que tinha. Tinha tempo pra chorar de amor, e pra sonhar as coisas. Tinha tempo pra não saber. E ele não. Os relógios, os passos, os espaços... Tudo dessincopou.
Uma lâmina fina no meio do estômago, um aperto no peito e algumas lágrimas secas: aquele momento triste em não há absolutamente nada a ser dito, e há muita, muita coisa pra ser aceita. O coração que queria se jogar sobre ele e se esfregar contra as cinzas do que não havia mais cedeu à razão e se recolheu pequeno, onde nem ela mesma pudesse ver.
Não queria virar. Ele estaria certamente de costas, mais preocupado com a partida de futebol que com a partida dela. Não era a primeira vez que ela estragava o amor, sabia como funcionava. Não fazia força sobre a maçaneta também. Até porque não tinha. Só esperava o  tempo voltar. Se voltasse, talvez não deixasse o amor morrer. Se voltasse e parasse na frente da praia e no meio das luzes, no dia que ele disse que ela era uma mulher incrível... Ou se parasse nos olhos dele na época em que dali dava pra ver um mundo inteiro mudando quando ela estava por perto; onde moravam histórias pela metade, planos, tristezas, incertezas, e até os filhos que ele nunca teria... Se parasse quando o coração dela parou porque ele estava longe, e ela fingir que não viu... Talvez fosse suficiente. Talvez. Tudo estava tão perto... Ela só queria ajeitar as coisas. E pedia, e dava mil razões, e suplicava... E suplicava... Mas o tempo não ouvia. Estava muito ocupado se preparando pra curar feridas.
Os segundos se tornaram minutos lentamente... E a vergonha de estar parada ali só não era maior que o amor que ficou sozinho dentro dela. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quisesse, ela voltava. Mas nada. A condenação da ausência ecoava pela sala. A mão que segurava a maçaneta foi se apertando, até que o silêncio foi quebrado pelo som da porta, e tudo dentro dela foi se quebrando pela rua.
Ouvia o vento soprando entre os cacos e as partes desfeitas. Deixava o rosto secar. Tentava esquecer o que deixava pra trás. Lembrava mais ainda. E chorava, chorava... Não porque deixou alguma coisa importante, ou que não devesse ter deixado... Chorava pelo que não havia mais e pelo silêncio. E também porque é muito ruim não ser mais amor, mas, pior que isso, é ser cansaço.
A rua continuava, como sempre, e a vida também. Dessa vez, continuava diferente. Queria muito ser forte e acreditar nas desculpas que ela mesma dava. Queria caber de verdade dentro do sorriso costurado no rosto. Tinha medo de querer as coisas, porque tudo que pensava em querer, de repente, não era mais. E quando as coisas não são mais, elas costumam doer. Era mais fácil, e menos doloroso, ser o que ela não queria.
Tudo ficou desengonçado por muito tempo, e a solidão conseguia incomodar mais ainda quando estava acompanhada. O coração se escondia tão bem que ninguém o via sangrando, e ela ria alto pra calar o próprio choro. Ria o tempo todo. Perdidas entre os copos de cerveja e as pontas de cigarro ficavam as lembranças. Lembrava-se da sala, e do silêncio. Lembrava-se das coisas boas também. Se perguntava se ele ainda estava de costas... Se deu uma espiadela pra vê-la partir... Se sentiu dor alguma vez. Mas nada disso importava muito. Não havia mais nada ali, e por isso ela foi. Foi quase por inteiro. Restaram alguns cacos no chão, uns pijamas no armário... E um pedaço que o coração deixou de si mesmo em cima da maçaneta, esperando pra ouvir se ele chamar. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quiser, ela volta.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sobre não saber



Tanta estrela no céu; tanta lua no mar; tantas luzes no horizonte colorindo a vista... E, ainda assim, aqui dentro é tudo tão escuro. O céu limpo, tão limpo, que parece feito à mão; a brisa soprando mansa pra dizer que não é mais primavera... E, ainda sim, uma chuva fina parece cair em mim o tempo todo. Aonde nasce o sol da alma da gente? Aonde acende a lâmpada que ilumina o coração?
Não sei em que parte de mim eu me perdi nessa terra aonde as coisas não são como deveriam ser (aliás, como as coisas deveriam ser?). Não sei pra que serve essa dor constante, pequena e melancólica, nem quando ela acaba. Ora uma dorzinha gostosa, de bicho de pé. Ora uma dor que parece um bicho enorme correndo atrás de mim. Mas sempre ela. Não sei como funciona isso de saber que se é feliz mesmo quando se está triste. Não sei como se faz pra saber das coisas, menos ainda por que preciso sabê-las.
Essa coisa de cantar, e de dançar, e de abraçar, e de dar colo, e de querer colo, e de beijar, e de falar em silêncio, e de não parar de falar, e de gritar no papel, e de chorar por qualquer coisa, e de rir pra tudo, e de ter medo, e de amar, e de doer, e de sangrar, e de viver... Essa coisa de ser eu é bastante confusa. E machuca às vezes. E eu não sei como é isso. Acho que é esse escuro que não me deixa ver as coisas. Elas vêm me atropelam e me acariciam; me batem e me abraçam; me amam e me desamam e vão embora pra longe... E eu nem vi, porque estava escuro. E eu não tenho culpa. E ninguém tem. E, na verdade, isso não importa. O que importa é que essa confusão toda não me deixa nem perceber o que importa. As luzes no horizonte? A lua? A brisa? O céu? As estrelas no céu, elas importam? E as estrelas do chão, que andam nos olhos das pessoas. Essas estrelas que eu vejo o tempo todo e que me fazem ter vontade de amar, muito mais que as estrelas do céu? Elas importam? E as estrelas dos meus olhos? Importam também? A vida responde com uma coisa que não é saber, nem não saber... E me deixa confusa de novo.
Ah, esse escuro... Esse escuro traiçoeiro que não me deixa ver as coisas, e por isso o odeio. Esse escuro sábio, que me permite sentir todas elas, e por isso o preciso. Onde todas as coisas se escondem e onde eu brinquei na minha infância. Onde tudo é prazer e pesar. Onde as horas da chegada e da partida se encontram, e eu me encontro repartida entre tudo o que existe. Ah, esse escuro tão maior do que eu mesma. Do tamanho do meu mistério. Meu mistério que gosta de brincar com os meus próprios pensamentos e mais ainda com os pensamentos alheios.
O que você guarda pra mim? O que você quer de uma menina tão menina que não cabe numa pintura de mulher? Que vive entre o balanço e a gangorra, que corre na calçada e brinca de adivinhar as nuvens? O que você espera de um par de asas que voou pra fora de si mesmo e não sabe mais como se volta? O que você pretende comigo, que não sei nada de mim mesma, e isso é tudo o que eu sei? Ah, esse escuro... O que você tem nessa sua ausência de luz? Que eu nem sei mais se é ausência ou se é excesso... Se é um escuro sem graça e ausente ou é um clarão que cega os meus olhos e espera, no silêncio sereno da malandragem dos homens vividos, que eu entenda que nada tem ele de escuro. E que os olhos da humanidade é que não aguentam tanta luz. E que na minha pequena existência, eu não entenderia tanta cor.
O que você espera? Porque eu espero também. E meus ombros estão exaustos. E meu corpo, a mente já desengonçou. Mas estou de pé. Ainda estou de pé. E com a pouca força que me resta eu tiro de dentro do sentimento, recolho do fundo dos meus pulmões e te entrego com a leveza de uma alma cansada: O que você espera?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Para (re)amar


Tem que ser espontâneo, meu bem,
E tem que ser colorido.
Pra você voltar comigo?
Ah... Só sendo bem bonito,
Só sendo bem vivido
Pra gente andar de mãos dadas
Do nosso jeito só nosso,
Pra gente rir das coisas,
Falar de tudo e beber cerveja,
Pra gente chorar junto,
(Porque você nunca chora)
Pra amar de novo, meu bem,
Só se vier de dentro.
E se puder ligar de noite
Pra falar da minha saudade,
Pra falar da tua ausência
E pra chorar a tempestade.
Só se eu ligar de repente,
Só se eu seguir a vontade,
E fizer tudo o que vem na mente,
Como a gente fazia antigamente
Quando que a gente não tinha hora marcada
Pra amar de novo.
Pra aceitar meu colo,
E olhar olho no olho
Sabendo que se é feliz,
Só se vier de dentro,
Só se quiser também.
Tem que ser a la volonté, querido.
Tem que ser espontâneo, meu bem.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Meninisse


Eu vi passando a menina travessa
Que corre pôr do sol à fora,
Correndo, ventando, ela se demora
Morrendo de amores pelo que lhe é viver.


Se distraia com dos detalhes o menor
E via vida onde ninguém mais via.
"A noite é para ela como o dia"
O pai, rindo, costumava dizer.


Era o alvo de etiquetas de toda espécie:
Desajeitada, atabalhoada, ventania.
Mas se lhe pudesse dar um nome, seria Maria.
Pra sempre rimar com "alegria" no final.


Se lhe dessem asas, voava.
Se lhe puxassem para o chão, não se continha.
Se procurassem lhe encontrar, se escondia
Por trás das diversas artimanhas dela mesma.


Os cabelos anelados emolduram
Um rostinho pequeno cantando alegria,
Mas num cantinho do olho alegre, jazia
Uma peculiar vontade de ser bem quista.


E ela se fazia de malabarista, 
De bailarina, de pintora, de atriz.
De cantora, de escritora, e até, de feliz.
E tentando achar o que faltava se perdia.


E desse modo a menina viveria
Buscando um espaço onde coubesse o seu sorriso
Até perceber que o faltava e era preciso
Era ter a noite como dia,
Era ser a menina ventania,
Era correr pôr do sol a fora,
Só sendo Maria.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sobre o coração


Prefiro acreditar que é o trânsito que está impossível. As horas no serviço, que tem passado lentas, e os trabalhos por fazer que estão atormentando o juízo. É isso... Cabeça cheia não dá espaço pra sentir saudade... Aposto que é isso sim. Não tem porque ser desgosto ou desamor... Ao contrário do gosto e do amor, essas coisas precisam de motivos. E bons. Enfim, estou certa de que se trata uma distância natural. Nada além de uma pequena ausência que não se sente, porque o tempo também é muito pequeno e a faz parecer menor ainda.
O problema mesmo é esse meu coração. Ele sim é sempre um problema! E o motivo do problema é bem simples: é que ele não tem relógio. É uma criança que não entende das coisas. Sai catando tudo pelo caminho, amando e deixando cair. É um passarinho, pequeno, frágil e muito forte que voa livre e sozinho. E que é sempre feliz, mesmo quando está triste. Que mora no vento e no céu, mas também precisa de um ninho, e gostaria de outro passarinho pra dividir (ou melhor, multiplicar) a liberdade. É uma Colombina que acha que todo dia é carnaval.
Ri de tudo, chora por tudo. Não sabe o que faz... E, quando faz, faz tudo na hora errada. Apaixona-se loucamente e ama quando e como bem entende... Mas não sabe ainda desamar. É mestre em mudar a cara do amor, em mudar suas cores. Até os sentimentos do amor ele muda! Agora, desamar... Eis um grande desafio.  Quando ele resolveu se dar conta de que batia rápido, quando se pegou esperando na porta de casa antes de mim, quando percebeu que gostava do perfume e de dormir na mesma cama e de encontrar o sorriso com o meu... Meu Deus do céu... Era quase tarde. Como um quase morto, um quase rico ou um quase nada. Era quase. Como um artista circense numa corda bamba, ele vai caminhando sobre a linha tênue entre a presença e a ausência... E é quase.
 É importante lembrar: ele não tem relógio e nem maldade. Só tem essa mania boba de ficar olhando e olhando, o tempo todo, porque não acredita que ainda esteja por perto, e que isso seja tão bom. Ele não tem noção de tempo, e por isso toda ausência dura muito mais que uma eternidade (pra ser mais precisa, dura uma lágrima inteira, mesmo que sejam só umas horinhas).
Eu entendo as distâncias, e o trânsito, e as obrigações. As cabeças cheias e as coisas que levaram a alguns espaços vazios no peito. Ele é que não entende nada, e fica se coçando pra encurtar os espaços e preencher com as cores dele tudo o que estiver sem cor. Explico mil vezes e ele não entende. Assim como não entende que suas espontaneidades não são sempre perdoáveis. Talvez ele nem queira entender. Talvez ele seja... Um louco! E tenha escolhido entender de outras coisas. Quem sabe, ele escolheu não saber de nada de todas essas coisas que todo mundo sabe justamente porque preferiu enlouquecer. Afinal de contas, todo mundo sabe que só assim, louco no mundo dos homens, pra conseguir entender do que ninguém entende, que é das coisas que tratam só de amor.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Buraco


Era tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não se sabia mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio e o que era perda. Os outros passavam pela rua e ela parecia permanecer, impávida, no mesmo lugar solitário o tempo o todo. Não se ouvia o som dos pássaros, nem dos passos, nem das pessoas, nem dela mesma. Ela não tinha mais som. A música parou, e ela não tinha um par pra dançar o silêncio. A vida muda seguia sem saber bem pra onde, ou porque... Mesmo assim seguia. E os dias iam escorrendo pelos olhos e pingavam no asfalto. As alegrias e as lembranças iam ficando pelo caminho, e tudo ficou muito cinza de repente. Era sentimento demais pra ficar guardando dentro da alma. Tinha que sair por algum lugar. Saia e ia descolorindo a avenida e deixando a vista opaca as coisas bonitas que, vez ou outra, passam na frente da gente e passavam pela frente dela, mas ela nem notava.
Não era culpa de ninguém. Não era uma grande tragédia. Não era uma história muito triste ou muito longa que ela contaria pros netos com um pesar de passado frustrado. Era só um buraco. Um buraco sem graça, enorme, que ficou aberto no meio dela, e onde nada encaixava. Esse pedaço de vazio, Nossa!, como doía. Como ardia sem parar o dia inteiro... Como podia caber, dentro de um vazio, tanto, mas tanto sentimento? Ela não sabia... E, a bem dizer, era tanta coisa gritando de tudo o que faltava ali, que ela nem queria saber. Só queria que sarasse. Queria que de um dia pro outro acordasse inteira de novo. Sem nada oco, sem ausência, e sem sentimentos que sufocam a vida da gente e fazem tudo doer toda vez que a gente respira.
O tempo pode até curar todas as coisas... Mas não devolve todas. E ela sabia disso. O tempo não traz de volta as partes que se perderam e as coisas que ficaram pra trás. Põe coisas no lugar e brinca com a nossa inteligência, e a gente finge que não percebe quando ele tenta compensar aquilo que tirou de nós. Nós não somos bobos - e nem ela. Apenas fingimos que somos pra tentar sofrer menos e não ficar brigando com o tempo, o que é uma grande perda de tempo, porque ele sempre vence.
Pensa. Suspira. Conclui. Aquele buraco vai permanecer lá. E não há nada que ela possa fazer a respeito. Quem sabe, os sentimentos possam até ir embora, diminuir ou se esconder pra visitar de vez em quando, quando a cabeça estiver distraída e o coração vazio. Mas ninguém vai trazer o que falta de volta. Vai cicatrizar, e, talvez parar de doer. Talvez ela aproveite o espaço pra encher de coisas bonitas e histórias gostosas de ouvir. Talvez ela até passe a ama-lo. Talvez encontre alguém que a ame tanto, mesmo com aquele pedaço vazio por dentro, que ela nem vai lembrar com tanta frequência que tem um pedaço vazio. Mas ele sempre vai estar lá, porque alguma outra coisa nunca vai estar. E toda vez que ela lembrar que ele está lá, vai ser tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não há de se saber mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio... E o que era amor.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pra não dizer que eu não disse


Falei baixinho, ali, bem no final. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. Entre um adeus e um até logo... Entre todas as incertezas... Acho que você não ouviu, ou não deu atenção, mas eu disse, e sorri, e saí correndo pelo mundo enquanto você procurava meio tonto as palavras que eu não disse (mas talvez quisesse dizer). Sussurrei e ri da sua busca meio perdida por tudo o que já houve e você, tão bobo, nem viu.
Minha alma, que é meio criança, brinca com os seus sonhos e entrelaça seus dedos. Não tem passado e nem futuro... Só é. E fica sendo na tua memória. No meu cheiro que já não tem corpo, na blusa amarela que falta no teu armário, no par de chinelos que já não tem pés... Na minha ausência que te consome por dentro e te deixa louco pensando em quem ocupa o lado esquerdo da minha cama. E você não sabe. E não vai saber. E eu me rio toda por dentro. Ou melhor, pela parte de fora do meu lado de dentro. Porque lá dentro de dentro, eu estou chorando também. E as coisas não tem a mesma cor, não é mesmo? E a logo a gente que não queria perder nada, que dormia abraçado e queria ser feliz... É melhor rir mesmo e lembrar o que eu disse. No fim de tudo, eu disse. Mas os seus ouvidos não escutaram. Sua alma não ouviu. Você está tão surdo de tanta coisa que não importa... De tantas cordas envelhecidas de um violão que nem faz mais tanto barulho assim... Que você não ouve, sua criança boba. Quase um bebê. Quase meu bebê. Quase nosso bebê. Quase felizes para sempre... Mas um “quase para sempre” tem um cheiro tão forte de nunca mais, que eu nem quero chegar perto. Prefiro deixar curar e virar lembrança, porque “quase para sempre” doí demais. E o nosso amor não merece mais dor, bebê. Nosso amor merece a paz das boas memórias e do silêncio distante. Do imutável passado e do incognoscível futuro. Do olhar cruzado na rua que tem nome, sobrenome e endereço, mas que a gente finge não saber quem é. Da barca de terça feira e da pedra do sal de segunda. Das praias de quinta... Nosso amor merece um anúncio de “Jaz em toda paz do mundo”.  E mais nada. Porque, dentro de mim, nosso amor merece o melhor. E o melhor não acaba, e nem morre. Fica nos livros de história e nos textos incompletos. Nos trechos perdidos na minha mudez quando eu vejo um outro amor nos seus braços (e vice-versa). Nas lágrimas que caíram e (mais ainda) nas que não podem cair.
Deita na tua tristeza sem fundo. Adormece nos teus sonhos de babel. Porque por mais que você odeie, e que você não entenda, e que você não ame... Eu disse. Minha paz é grande e meu sono é tranquilo. No final da estrada, na curva sem fundo, na melancolia da ausência... Eu disse.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Soneto a menina


Menina do coração inconstante,
Que brinca sorrindo com o mundo
E vive tudo o que o instante não permite
E que tem duas asas e um segundo,

Menina da alma de algodão,
Pra quem em tudo existe beleza,
Que ama tudo o que sonho põe nas mãos,
Que não acha que é preciso ter certeza,

Não escuta essa gente que te diz
Dos teus passos que não tocam o chão
E da tua força que é feita de giz

Desenha na tua alma um balão
E te lembra que no céu que se é feliz
E que a força da tua alma é a imensidão.

sábado, 7 de setembro de 2013

Sobre o adeus e o amor





A primeira ideia que me ocorreu foi ligar pro teu telefone e dizer umas palavras doces, que acalmam o meu peito e amansam a tua alma. Talvez assim você entendesse a doçura que a tua presença me traz, e dissesse menos bobagens.
Mas todas as palavras já foram gastas, ou cortadas pelos meus soluços, ou silenciadas pelo seu silêncio. E a doçura parece amarga diante do teu olhar cansado.
E eu escolhi permanecer calada.
A segunda ideia que me o correu foi pintar a nossa historia inteira numa carta imensa, e chorar. Chorar muito. Até encharcar a carta e te afogar na minha dor, pra que você entenda o que a tua ausência me causa. Talvez, assim, voltasse pra casa.
Mas um regresso motivado pela pena ou pela dor não me lembra uma história feliz... E, muito acima de mim mesma, eu sempre te quis feliz.
E eu escolhi deixar as folhas em branco.
A terceira ideia que me ocorreu foi gritar na frente da tua casa. Jogar por debaixo da porta todas as injustiças, e todos os teus erros, e todos os seus desamores. Te ferir com os teus próprios passos e apontar as manchas da sua alma.
Mas você conhece bem os teus passos e as tuas mazelas. E desamor só é crime aos olhos de quem não é amado. Porque, na verdade, não se trata de crime nenhum.
E eu escolhi permanecer em casa.
O última ideia que me ocorreu foi desviar os meus olhos dos seus. Perdoar os teus erros de longe, e seguir como se tudo tivesse acontecido. Foi gravar as historias no meus coração e entender que amanhã não tem você. Talvez assim ouvir o seu nome doesse menos. E os nossos planos seriam apenas poeira no vendaval da minha memória.
E eu escolhi permanecer amando.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Cacos


Eu cortei os cabelos, porque sei que você gosta assim. Comprei a roupa mais bonita e fiquei linda, porque eu sei que você gosta assim. Numa fotografia, eu cheguei a fingir que estava sorrindo e, apesar do insucesso, era um fingimento bonito. E eu achei que você ia gostar assim.
Preparei tua comida, tua casa e os teus olhos... Preparei meu corpo e o meu coração. O tempo urgia, porque você estava pra chegar, então eu deixei tudo pronto pra você chegar aonde quiser. Mas meus pés e as minhas mãos, em rendição, eram despreparados demais. Solícitos demais. Estavam amando demais. 
E foi assim, de dentro pra fora do meu coração que você escolheu a ferida mais profunda pra tocar, e sem medir o estrago, foi embora. Porque os meus erros eram maiores que os teus gostos, e já não cabiam mais no seu quarto. Porque meu abraço não era tão macio. Porque o teu sentimento nunca me quis, e era uma questão de tempo pra você não querer também. Ou porque você não gosta assim. Ou eu não sei porquê.
A rua ficou vazia. E o meu peito também. E eu fiquei quase só (porque havia um lenço e uma caneta). E eu só queria saber se havia conserto pros meus erros e pros teus... Mas nem isso eu sabia. Não sabia mais de nada. Porque eu estava só.
Eu era uma boneca feita de porcelana, de tinta e de você. E eu quebrei. Você me deixou cair e me parti em tantos pedaços quantos eram possíveis. E agora é impossível ser um só. Somos dois pra sempre. Irreversivelmente desunidos por uma melancolia triste, cheia de desimportâncias e histórias mal contadas.
E de nós dois, o que sobrou de mim? Quem sobrou de mim? O que é esse resto de nós dois, que é tão diferente de mim? São uns cacos confusos, e uma poeira fina, que voa quando alguém sopra de perto e não sabe bem o que faz. É uma moça de cabelos cortados e cara pintada, que é triste. É um cabide pra uma roupa bonita. Um rosto sem nome na fotografia.
O tempo urge mais uma vez, e me empurra pra frente com muita força. Ele não esta aí pra bobagens, nem vai perdoar as demoras. Ele não se preocupa muito com o que é e o que deixou de ser. É hora de reparar o que se partiu, antes que ele me atropele e desapareça com tudo o que restou de mim.
Toda vez que eu tento recolher minhas partes eu me corto, e eu sangro, e dói. Dói mais pela sua ausência. E nada disso é bom. Mas, mesmo com os dedos sangrando e a alma doendo, vou recolhendo os pedaços todos e vou criar uma coisa bonita. Uma coisa cheia de cor, de música e poesia, com muita história pra contar e muita vida pra viver. Vou unindo os cacos, inventando ladrilhos e imagens novas. Telas que contam feitos heroicos e romances impossíveis. Cada parte que se feriu vai se tornar um fio nas mãos de um tecelão, e tudo acaba numa tapeçaria linda. No final eu vou sorrir e olhar pra obra pronta com uma cara de coisa eterna. E vou me orgulhar daquilo que eu construí, e vou sentir amor de novo. E não vou ter medo, não importa quantas forem, de mostrar as cicatrizes que essa mania de amar demais me fez. São minhas, únicas e feitas da matéria prima com a qual se fazem as almas fortes. E não vão doer mais (nem menos). E eu vou gostar assim.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Eu gosto tanto


Que gostoso é ter você por perto. É ter você por dentro do peito e por cima da pele... E trocar o mesmo ar, trocar umas palavras... E não querer trocar de lugar com ninguém no mundo. Não quero contar melancolias, nem lembrar que existe vida após o cansaço. Não quero nem lembrar da palavra cansaço... Aliás, melhor: não quero lembrar de nada! É só ficar enovelada nos seus lençóis, afagando os seus pensamentos que eu começo esquecer dos meus.
E é por causa deles (tantos!) que as vezes eu fico triste... Eu caminho marcando os passos com força, e as ruas são meio sem cor. Quase todas... A sua não. A sua rua tem cor, e tem música, e tem você. E o meu rosto se encaixa na cena do seu quarto. E, de repente, eu pareço sorrir sempre. Eu sei que não dá pra sorrir sempre, mas o que eu quero dizer... É que é bom estar com você. É bom que nem uma colher de nutella ou uma estrala cadente. Não importa muito o porque... Nem o quando... Nem o onde.. Só é bom.

sábado, 6 de julho de 2013

As cartas e os olhos



Cuidado com a tua escrita, moreno. Cuidado com as tuas palavras doces demais. Cuidado com as tuas cartas... Porque, desse jeito, basta um remetente errado e a desgraça está feita dentro de um coração que não sabe amar de menos. Cuidado pra não trocar suas fantasias por sentimentos, e acabar punindo com a dor de um amor de mentira quem nunca mereceu. Sente bem os teus sentimentos antes de dizê-los.
Porque os enganos foram acontecendo... Os dias escurecendo... E eu lendo todas aquelas cartas nos seus olhos, achando que eram pra mim... E eram de todas elas. Menos minhas.Pára de ser só enquanto me olha nos olhos, e pára de sorrir pra minha teimosia. Larga a minha mão e o meu corpo... Porque tudo o que eu quero é permanecer aqui, e tudo o que eu devo é ir embora. Ir pra longe do regaço macio dos seus braços aonde eu dormia, e do som da tua música de noite estrelada. Porque eu passo pelo teu pensamento, mas não é lá que eu moro. Assim como na tua casa, sou mais um transeunte, ainda que o meu coração insista em lhe chamar de lar. Deixa minha vida ir pra onde ela mora. Deixa que minha alma encontre um espaço seguro. Deixe que a minha boca repouse numa outra menos quente e mais tranquila, com mais amor do que paixão. Desiste dessa sua ternura lasciva que me tortura a mente, me agarra pelos ombros e me leva até a tua porta, antes que eu mesma me dê por mim. Desiste, porque o medo que ela me traz me desmonta, e quando eu me remonto está sempre faltando um pedaço. Desiste, porque é doloroso admitir que você é sempre o pedaço que me falta, e eu estou cansada de dor. Logo eu, que vinha lendo todas aquelas cartas nos seus olhos, achando que eram pra mim... E não sabia que eram apenas cartas com ninguém por remetente.

domingo, 23 de junho de 2013

O que não sabem



Existe tanto silêncio em tudo o que eu digo que até as cordas do meu violão soam mudas de tanto falar do que me falta. E existe tanta tristeza no meu sorriso... Que ele nem é mais meu.
Está quente lá fora, e em todos os lugares fora de mim. Mas aqui dentro esse frio imenso me torna imóvel: emudece meu grito, enxuga minha lágrima e pinta o meu rosto como os rostos dos palhaços do circo, que parecem amar sempre.
Ah, se todos soubessem que é de amar sempre que o meu coração está cheio d'água... Se todos entendessem que eu já não caibo em nenhum abraço... Ah, se eles soubessem... Mas não sabem. E nem querem. Se bastam dentro de suas imaginações inférteis e julgamentos comprados e se vestem de gente muito mais feliz do que eu... E como uma estátua sem alma que eles querem que eu seja, assisto tudo sorrindo. Vou fazendo malabarismos com as palavras e os sonhos pra demonstrar alguma destreza.
E de irreverência, de independência e de liberdade é que eu construo a minha própria solidão. Entre as pessoas e as saudades o tempo vai escorrendo lento e deixando um rastro de flores aonde quer que eu passe.
Com um feixe de histórias amarradas no colo, uma fita presa nos cabelos e muito, muito sentimento eu me pego sentada na porta da rua, assistindo a vida passar. Vai sambando, contente, avenida a fora. Ela canta tão alto, mais tão alto... Que ninguém escuta quanto silêncio existe em mim, em tudo o que eu digo e em tudo o que eu não digo. Nem mesmo eu mesma... Nem o mais próximo... Nem o mais distante. Nem as cordas do meu violão, que já soam mudas de tanto falar do que me falta.

Esquecimentos


Estive andando pela rua, chutando umas folhas secas, e lembrei que esqueci do meu coração no peitoril da janela, esperando você chegar. Deixei também o fogão aceso, porque a sua ausência não estava pronta pra existir quando eu sai, e resolvi deixar cozinhando. Acabou passando do ponto, e foi junto com o fogo se alastrando pela casa e pelas faltas que você me faz. Não restou nem a lembrança do último abraço pra contar a história.
Não sei se eu quero voltar pra tentar apagar o incêndio... Alguma coisa em mim quer essa chama acesa, porque é a única coisa que me aquece - mesmo que eu tenha que lidar com as cinzas depois. Mesmo que tudo fique sem cor. Mesmo que não sobre nada de mim.
Eu queria dizer que a minha mão sem a tua sabe o que faz, mas eu não posso. Porque você vê as minhas obras tortas. E as rosas que eu pinto estão sempre descontentes.
A minha cidade é barulhenta enquanto tudo aqui dentro silencia, com medo da música errada virar o seu nome. São silêncios finos esses que tecem os meus dias. São as pausas entre as minhas palavras e os pequenos deslizes dos meus sorrisos. E eles vão se entrelaçando sem que eu mesma eu dê conta. E quando me dou por mim estou lá eu, vestida com a fantasia que o meu próprio medo fez.
A vida não pára, não cansa e não perdoa. Me engole, me digere e não tem pena de mim. Me joga de um lado para o outro, e te põe no meu coração sem me perguntar o que eu queria.
Estive andando pela casa, lendo os meus olhos tristes, e me lembrei que esqueci os seus olhos dentro dos meus, esperando, quem sabe, o amor, mostrar que sempre esteve lá.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Proposta



Posso esquecer de toda a etiqueta e dos bons costumes e pedir a sua mão em casamento  pra ter casa, comida e roupa lavada? Sim, eu sei: não é comum ouvir uma proposta dessas da boca de uma moça. Como não é comum me ouvir falar em ser moça e dos modos, e das modas e das mudezas que isso implica. Sei o quão altos são esses muros dentro de mim, e do tamanho cinza do meu silêncio que fala o tempo inteiro.
Mas... E se eu não for toda essa independência?
As coisas passam pela janela do ônibus e eu lembro do seu nome. As borboletas que você plantou no meu estômago se alvoroçam e saem sorriso a fora pela minha boca. E eu sinto a minha certeza ruir.
E se em algum lugar da minha mochila existir a vontade de ser uma mocinha? De usar fita no cabelo, e ter direito até a dedinho levantado pra tomar chá e a risadinhas inaudíveis toda vez que você passa? E se em algum lugar dessa mulher de boca vermelha e olhos pintados existir uma menina no balanço, esperando que você venha empurrar? Porque ela sabe que não sabe de nada da vida, e que não precisa saber - desde que você esteja sempre lá, empurrando o balanço. E se todos, todos esses lugares em mim... Forem você?
Se eu te dissesse que toda essa segurança é fragilidade; essa brutalidade é ternura e essa solidão queria ser menos só? Porque eu me sinto muito sozinha também. Eu não sorrio sempre, e minha alma é muito solitária. E o meu tempo também passa devagar. Logo eu que, pra ver se me percebo menos, rio tanto, falo tanto, vivo tanto... Logo na minha casa vazia, logo no meu silêncio imenso chega você com todo esse samba. E me desmonta toda! Vem a sua barba e afaga o meu rosto. Vem a sua mão e toma conta da minha. Vem o seu sorriso fazer o meu. E vem esse seu beijo...
Tudo isso que é tão seu vem me fazer lembrar que eu existo. Vem me fazer gostar de existir... E, de repente, todo o esforço em não ser ou não sentir é vão. Já não importam os meus orgulhos bobos. Porque na ausência de espaço entre a sua alegria e a minha não cabem nem os meus medos, menos ainda os meus orgulhos.
Dentro do quarto imóvel e no fundo dos olhos mora uma proposta que dorme tenra e contente nos teus braços, e se transforma toda vez que os teus dedos deslizam pelos meus cachos.
Não, não vou mais pedir tua mão em casamento, pra ter casa, comida e roupa lavada. Me dá tua asa em pensamento e me leva voando pra qualquer lugar? Me leva pra provar todas as coisas? Que eu quero vestir o teu abraço agora, e enquanto mais eu existir também.

Sobre um menino


O seu nome é um sussurro constante na minha lembrança (tão constante que é quase um grito). Ele me atravessa o tempo todo. Só não me atravessa mais do que o meu próprio nome quando você chama. A minha passada ritmada se descompassa, as mãos precisas perdem o traquejo e os meus olhos se perdem, querendo e evitando a armadilha dos seus.
O que é que você tem nesse teu peito vadio? Nessa sua barba não feita? Nessa falta de importância das coisas? É como uma chuva fina no fim de um dia quente; um colo materno para um par de joelhos ralados ou duas asas ruflantes pra quem é feito de liberdade por dentro. 
Veste essa tua fantasia de alegria e sai, porque onde o teu coração mora todo dia é carnaval. Chega sorrindo, me toma pela mão e me leva pra rua, que a noite só está começando e o dia só serve pro sono. Me ensina a rir e a ver e a viver também. Me ensina o teu silêncio e me tira o meu. 
Desconcerta todos os meus planos perfeitos. Pinta todos os muros altos que eu construí dentro de mim, e suja a ponta do meu nariz.
Todas as suas cócegas e as suas implicâncias; todas as suas histórias e os seus risos; todas as suas irrelevâncias e os seus medos... Tudo o que falta em mim quando você não está. Quando a noite está fria, e a rua deserta, e eu calo a mente pro sono chegar, ainda aí, resta esse sussurro constante na minha lembrança (tão constante que é quase uma presença).

sábado, 11 de maio de 2013

Bicho estranho


O ser humano, definitivamente, é o bicho mais estranho de todos os bichos que perambulam pela superfície terrestre. Em todas as suas diversas manifestações parece se esforçar pra ser cômico e acaba sendo cômico sem esforço: chora engraçado, ri engraçado, fala engraçado, briga engraçado... Chego a pensar que Deus só dotou o homem de razão pra que ele pudesse avaliar sua própria falta de lógica, rir de si mesmo e dizer: “Fui EU mesmo, Homo sapiens sapiens, que fiz isso? NOSSA! Hahaha... Como eu sou engraçado!”
Pare e pense: nós brigamos até por brigadeiro, rimos de nossa própria desgraça, choramos pelo que é óbvio e falamos ou demais ou de menos. Somos mestres em errar na medida. Somos exagerados e caricatos... Repito: SOMOS ENGRAÇADOS. Somos piadas ambulantes e, IRONICAMENTE, vivemos dizendo que a vida anda sem graça. HÁ-HÁ-HÁ! Uma risada bem larga é a vida, isso sim.
Passamos horas e horas contando os minutos que nós mesmos inventamos pra tornar a vida mais calculada (e consequentemente mais chata) e reclamamos o tempo todo que nos falta tempo. Por Deus, Homens! O tempo está aí: faltam vocês na vida. Falta comédia na vida de vocês. Falta vida na vida de vocês!
Faltar vida na vida... Só o ser humano mesmo!
Ao invés de nos preocuparmos em tornar a vida séria e ritmada; em justificar nossas ações e sair bradando aos 7, 8, 9... 200 VENTOS o quanto somos racionais, deveríamos e parar de vez em quando, dar uma boa olhada ao redor e dizer: “Fui EU mesmo, Homo sapiens sapiens, que fiz isso? NOSSA! Hahaha... Como eu sou engraçado!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatuagem



Eu devia escrever teu nome debaixo da minha pele, rapaz. Letra por letra escrever dos teus olhos nos meus olhos. Escrever tudo que diz respeito a nossa história e deixar marcado dentro e fora de mim. Tornar tudo isso lembrança, porque eu sei que vai ser ausência. Fechar os olhos e fingir que é ternura, porque eu sei que é só faz-de-conta. 
Preciso sentir que alguma coisa tua está comigo de verdade. Um nome... Não muito. Só um nome.
Não que eu ame, não que eu sofra, mas é que eu precise. Porque tem um vazio imenso dentro de mim que precisa de um nome. Não que eu queira, não que eu acredite, mas é que eu me engane. Porque é só pra encontrar um jeito menos triste de enxergar as coisas.
Existem tantas coisas que não podem existir... As cartas que eu não escrevo, porque você não lê. As palavras que eu calo, porque não escuta. A lágrima que já nem cai de tão cansada, porque você não vê. E silêncio após silêncio, eu continuo rindo.
No meio da bagunça e da noite não tem espaço pra vazio. Quanto sentimento pra só dois corpos... É tanto que não existe. Que nem precisa existir. E é por isso que é só isso, e que não vai ser mais.
Talvez nem se deva escrever sobre isso que não existe, nem contar pra ninguém. Talvez nem se deva pensar, porque se eu pensasse, existiria. Talvez eu só deva escrever teu nome debaixo da minha pele, rapaz. Letra por letra escrever dos teus olhos nos meus olhos. Escrever tudo que diz respeito a nossa história e deixar marcado dentro e fora de mim.

sábado, 2 de março de 2013

Leveza


Sentia-me uma lamparina... Uma lâmpada acesa no meio do mundo de Drummond: "Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração." Uma lamparina sorridente e constante, de costas pra vida, caindo nela como se cai numa almofada macia numa tarde de verão. Como se cai em uma pilha de folhas secas, sem medo dos monstros e das histórias... Caí como quem flutua, e não anda, no meio da rua vazia e da lua cheia.
Não me importam as moscas e carros. Não cabe a mim tentar tratar de defuntos. Não... Os vivos me ocupam demais. A vida me inunda demais. Me transborda numa gargalhada larga. Se estampa com leveza num um sorriso sereno de luzes apagadas, depois de uma água gelada e de um cansaço que pesava tanto... Mas tanto... Tanto... Que sumiu. 

A rua é longa... Quase eterna. Largo a muleta que me ampara e me equilibro no meio fio. E tem platéia! Os tambores rufam. Cada passo pra longe dali, é um passo mais perto de mim. Me sinto na linha tênue que divide as decisões. E eu estou ali em cima. E fico. Até que me canso da tensão de existir e me jogo pro lado que mais me aprouver. Quando eu quiser, subo de novo, e recomeço o espetáculo. E o público vai a loucura! 
Não quero existir como um peso, desses que se sabe a medida e que se usam nas balanças pra medir outras coisas. Nem como um pêndulo torto e errante que não sabe de onde vem ou pra onde vai. Não, não... Meu caminho não é esse. Quero existir como um feixe de luz. Como um raio de sol... Como uma estrala no céu... Ou como uma lâmpada acesa, sorridente e constante. E de costas pra vida, cair nela como se cai numa almofada macia numa tarde de verão.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ismália


Fechava os olhos com força a apertava as cobertas contra o nariz e as bochechas. Tudo que queria era uma noite eterna, com muitas estrelas  no céu e sonhos igualmente eternos. Queria voar para a lua, cair da lua e encontrar o colo dele pra rir, semicerrar os olhos e dizer: "Eu caí!". E asas! Um par branco, felpudo e macio de asas como as de Ismália, pra ruflarem de par em par. Uma alegria deslisando no céu e tocando com a ponta dos dedos o mar tranquilo, e muitas história pra contar. Uma luz tênue e tranquila que só a noite mais pura e desnuda pode oferecer... A nudez das palavras ditas e não ditas, mas sempre sabidas (a cor pálida do silêncio incomodava a vista).
"Saiam, tristezas! Saiam todas! Pensamentos livres, invadam-me!", dizia. E gargalhava, porque tudo é sempre lindo, e porque a existência tinha esse péssimo hábito de fazer cócegas (muitas vezes mal interpretadas) em horas inconvenientes.
O ar chegava doce e invadia sua garganta. Um friozinho gostoso surgia e dava vontade de respirar mais fundo. O fundo do mundo estava ali, inteiro, nos seus pulmões. Enchia-se por completo.
E mais gargalhadas... E mais risos sem hora pra acabar... Deixou a solidão sozinha e foi dançar na ponta dos pés. Cantava a pleno coração e se emocionava com a própria vontade de viver. Existia. No meio da cidade, e das voltas, e dos medos ela, enfim!, existia. E como era bom ser.
Reclinava a cabeça tranquila sobre o peito da vida e dormia, sorrindo sempre.
Ainda amparada pelo frescor da brisa noturna e pela ternura das nuvens azuladas os braços e as pernas começaram a ficar quentes e um clarão sem fim invadiu a janela. Ainda havia janela? Já não se lembrava da vida antes do céu.
Não, não queria abrir os olhos. Isso seria deixar a noite escapar... Os sonhos, desejados e eternos, escapariam. Os risos, a lua, as asas... Mas a essa hora, o sol já gritava, deixando tudo com um ar turbulento e branco. A realidade, inimiga declarada da existência, veio lhe puxar as cobertas. E os olhos se abriram. E ela se abriu. E a gravidade voltou a pesar sobre o corpo e sobre a alma.
Levanta-se. Veste-se. Convence-se: é hora de deixar de existir.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Carta ao Pescador


Ah, Pescador... Esses teus olhos de mar, essa tua alma de fragata, vem me invadindo. É uma saudade longa e cansada essa, que os teus olhos fizeram. Mas me invade mais! Chega pra perto e repousa desse mar bravio e ingrato que avida tem sido.
Me conta de novo as tuas histórias de outros mares regadas a Whisky e água de coco. Me fala dos peixes imensos, dos naufrágios... Me apavora com as sereias e seus cantos, e me encanta com os mares abertos em pleno fim de tarde. Diz pra mim dos teus feitos heroicos e da tua falta de cautela... E me faz rir sempre. E ri do meu riso. E me desentende.
Não, não se vira! Essa minha cara de espanto é só o desconcerto que você me traz. Essa minha mudez é só embaraço. E as poucas frases tontas que me escapam cambaleiam tanto e tem tão pouco sentido em virtude da embriaguez que me causa essa tua presença.
Fica mais, se demora, e apaga a luz para que não se veja mais ninguém. Me dá palavras tuas para eu brincar de encaixar, enquanto tua mão desliza pela minha perna e se recolhe, incompreendida. Me dá tua mão, e dá se inteiro.
Aonde tem gastado suas redes, Pescador? Quantas ainda lhe restam? Tens mais histórias que redes... E a vida está entre essas duas medidas. A vida é uma corda bamba, viver é um equilíbrio e a felicidade é uma forma de se caminhar. Pé ante pé, onda ante onda, prossegue.
Ah, Pescador... Me fala mais de tudo no que você quer que eu acredite, pra que eu acredite em tudo o que eu quiser, numa teimosia tão prepotente que torna-se doce. Num gesto impávido, que é uma ternura que se disfarça pra não sofrer.
A tua imaginação, as tuas idéias, os teus prodígios... As tuas escamas eu vislumbro uma a uma com os olhos aguçados aos sentimentos alheios. E te leio, em meio ao cintilar de tuas formas, sem que você permita.
Pescador, Pescador... Devo lhe contar umas e outras também: Me lancei ao mar para que me buscasse. E na ânsia frustrada de te alcançar, me fiz um peixe. O mais dourado! E deixei-me fisgar. Me vejo em tuas mãos quentes antes que eu mesma possa medir o tamanho da minha decisão.
Servida sobre a tua mesa; no teu aquário particular ou a venda, numa feira qualquer, exposta aos olhos de qualquer um que não seja o pescador. Já fiz-me peixe, já fiz me presa, já fiz-me sua. Pousa-me onde lhe aprouver, Pescador. Pousa-me onde lhe aprouver.