segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sobre não saber



Tanta estrela no céu; tanta lua no mar; tantas luzes no horizonte colorindo a vista... E, ainda assim, aqui dentro é tudo tão escuro. O céu limpo, tão limpo, que parece feito à mão; a brisa soprando mansa pra dizer que não é mais primavera... E, ainda sim, uma chuva fina parece cair em mim o tempo todo. Aonde nasce o sol da alma da gente? Aonde acende a lâmpada que ilumina o coração?
Não sei em que parte de mim eu me perdi nessa terra aonde as coisas não são como deveriam ser (aliás, como as coisas deveriam ser?). Não sei pra que serve essa dor constante, pequena e melancólica, nem quando ela acaba. Ora uma dorzinha gostosa, de bicho de pé. Ora uma dor que parece um bicho enorme correndo atrás de mim. Mas sempre ela. Não sei como funciona isso de saber que se é feliz mesmo quando se está triste. Não sei como se faz pra saber das coisas, menos ainda por que preciso sabê-las.
Essa coisa de cantar, e de dançar, e de abraçar, e de dar colo, e de querer colo, e de beijar, e de falar em silêncio, e de não parar de falar, e de gritar no papel, e de chorar por qualquer coisa, e de rir pra tudo, e de ter medo, e de amar, e de doer, e de sangrar, e de viver... Essa coisa de ser eu é bastante confusa. E machuca às vezes. E eu não sei como é isso. Acho que é esse escuro que não me deixa ver as coisas. Elas vêm me atropelam e me acariciam; me batem e me abraçam; me amam e me desamam e vão embora pra longe... E eu nem vi, porque estava escuro. E eu não tenho culpa. E ninguém tem. E, na verdade, isso não importa. O que importa é que essa confusão toda não me deixa nem perceber o que importa. As luzes no horizonte? A lua? A brisa? O céu? As estrelas no céu, elas importam? E as estrelas do chão, que andam nos olhos das pessoas. Essas estrelas que eu vejo o tempo todo e que me fazem ter vontade de amar, muito mais que as estrelas do céu? Elas importam? E as estrelas dos meus olhos? Importam também? A vida responde com uma coisa que não é saber, nem não saber... E me deixa confusa de novo.
Ah, esse escuro... Esse escuro traiçoeiro que não me deixa ver as coisas, e por isso o odeio. Esse escuro sábio, que me permite sentir todas elas, e por isso o preciso. Onde todas as coisas se escondem e onde eu brinquei na minha infância. Onde tudo é prazer e pesar. Onde as horas da chegada e da partida se encontram, e eu me encontro repartida entre tudo o que existe. Ah, esse escuro tão maior do que eu mesma. Do tamanho do meu mistério. Meu mistério que gosta de brincar com os meus próprios pensamentos e mais ainda com os pensamentos alheios.
O que você guarda pra mim? O que você quer de uma menina tão menina que não cabe numa pintura de mulher? Que vive entre o balanço e a gangorra, que corre na calçada e brinca de adivinhar as nuvens? O que você espera de um par de asas que voou pra fora de si mesmo e não sabe mais como se volta? O que você pretende comigo, que não sei nada de mim mesma, e isso é tudo o que eu sei? Ah, esse escuro... O que você tem nessa sua ausência de luz? Que eu nem sei mais se é ausência ou se é excesso... Se é um escuro sem graça e ausente ou é um clarão que cega os meus olhos e espera, no silêncio sereno da malandragem dos homens vividos, que eu entenda que nada tem ele de escuro. E que os olhos da humanidade é que não aguentam tanta luz. E que na minha pequena existência, eu não entenderia tanta cor.
O que você espera? Porque eu espero também. E meus ombros estão exaustos. E meu corpo, a mente já desengonçou. Mas estou de pé. Ainda estou de pé. E com a pouca força que me resta eu tiro de dentro do sentimento, recolho do fundo dos meus pulmões e te entrego com a leveza de uma alma cansada: O que você espera?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Para (re)amar


Tem que ser espontâneo, meu bem,
E tem que ser colorido.
Pra você voltar comigo?
Ah... Só sendo bem bonito,
Só sendo bem vivido
Pra gente andar de mãos dadas
Do nosso jeito só nosso,
Pra gente rir das coisas,
Falar de tudo e beber cerveja,
Pra gente chorar junto,
(Porque você nunca chora)
Pra amar de novo, meu bem,
Só se vier de dentro.
E se puder ligar de noite
Pra falar da minha saudade,
Pra falar da tua ausência
E pra chorar a tempestade.
Só se eu ligar de repente,
Só se eu seguir a vontade,
E fizer tudo o que vem na mente,
Como a gente fazia antigamente
Quando que a gente não tinha hora marcada
Pra amar de novo.
Pra aceitar meu colo,
E olhar olho no olho
Sabendo que se é feliz,
Só se vier de dentro,
Só se quiser também.
Tem que ser a la volonté, querido.
Tem que ser espontâneo, meu bem.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Meninisse


Eu vi passando a menina travessa
Que corre pôr do sol à fora,
Correndo, ventando, ela se demora
Morrendo de amores pelo que lhe é viver.


Se distraia com dos detalhes o menor
E via vida onde ninguém mais via.
"A noite é para ela como o dia"
O pai, rindo, costumava dizer.


Era o alvo de etiquetas de toda espécie:
Desajeitada, atabalhoada, ventania.
Mas se lhe pudesse dar um nome, seria Maria.
Pra sempre rimar com "alegria" no final.


Se lhe dessem asas, voava.
Se lhe puxassem para o chão, não se continha.
Se procurassem lhe encontrar, se escondia
Por trás das diversas artimanhas dela mesma.


Os cabelos anelados emolduram
Um rostinho pequeno cantando alegria,
Mas num cantinho do olho alegre, jazia
Uma peculiar vontade de ser bem quista.


E ela se fazia de malabarista, 
De bailarina, de pintora, de atriz.
De cantora, de escritora, e até, de feliz.
E tentando achar o que faltava se perdia.


E desse modo a menina viveria
Buscando um espaço onde coubesse o seu sorriso
Até perceber que o faltava e era preciso
Era ter a noite como dia,
Era ser a menina ventania,
Era correr pôr do sol a fora,
Só sendo Maria.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sobre o coração


Prefiro acreditar que é o trânsito que está impossível. As horas no serviço, que tem passado lentas, e os trabalhos por fazer que estão atormentando o juízo. É isso... Cabeça cheia não dá espaço pra sentir saudade... Aposto que é isso sim. Não tem porque ser desgosto ou desamor... Ao contrário do gosto e do amor, essas coisas precisam de motivos. E bons. Enfim, estou certa de que se trata uma distância natural. Nada além de uma pequena ausência que não se sente, porque o tempo também é muito pequeno e a faz parecer menor ainda.
O problema mesmo é esse meu coração. Ele sim é sempre um problema! E o motivo do problema é bem simples: é que ele não tem relógio. É uma criança que não entende das coisas. Sai catando tudo pelo caminho, amando e deixando cair. É um passarinho, pequeno, frágil e muito forte que voa livre e sozinho. E que é sempre feliz, mesmo quando está triste. Que mora no vento e no céu, mas também precisa de um ninho, e gostaria de outro passarinho pra dividir (ou melhor, multiplicar) a liberdade. É uma Colombina que acha que todo dia é carnaval.
Ri de tudo, chora por tudo. Não sabe o que faz... E, quando faz, faz tudo na hora errada. Apaixona-se loucamente e ama quando e como bem entende... Mas não sabe ainda desamar. É mestre em mudar a cara do amor, em mudar suas cores. Até os sentimentos do amor ele muda! Agora, desamar... Eis um grande desafio.  Quando ele resolveu se dar conta de que batia rápido, quando se pegou esperando na porta de casa antes de mim, quando percebeu que gostava do perfume e de dormir na mesma cama e de encontrar o sorriso com o meu... Meu Deus do céu... Era quase tarde. Como um quase morto, um quase rico ou um quase nada. Era quase. Como um artista circense numa corda bamba, ele vai caminhando sobre a linha tênue entre a presença e a ausência... E é quase.
 É importante lembrar: ele não tem relógio e nem maldade. Só tem essa mania boba de ficar olhando e olhando, o tempo todo, porque não acredita que ainda esteja por perto, e que isso seja tão bom. Ele não tem noção de tempo, e por isso toda ausência dura muito mais que uma eternidade (pra ser mais precisa, dura uma lágrima inteira, mesmo que sejam só umas horinhas).
Eu entendo as distâncias, e o trânsito, e as obrigações. As cabeças cheias e as coisas que levaram a alguns espaços vazios no peito. Ele é que não entende nada, e fica se coçando pra encurtar os espaços e preencher com as cores dele tudo o que estiver sem cor. Explico mil vezes e ele não entende. Assim como não entende que suas espontaneidades não são sempre perdoáveis. Talvez ele nem queira entender. Talvez ele seja... Um louco! E tenha escolhido entender de outras coisas. Quem sabe, ele escolheu não saber de nada de todas essas coisas que todo mundo sabe justamente porque preferiu enlouquecer. Afinal de contas, todo mundo sabe que só assim, louco no mundo dos homens, pra conseguir entender do que ninguém entende, que é das coisas que tratam só de amor.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Buraco


Era tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não se sabia mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio e o que era perda. Os outros passavam pela rua e ela parecia permanecer, impávida, no mesmo lugar solitário o tempo o todo. Não se ouvia o som dos pássaros, nem dos passos, nem das pessoas, nem dela mesma. Ela não tinha mais som. A música parou, e ela não tinha um par pra dançar o silêncio. A vida muda seguia sem saber bem pra onde, ou porque... Mesmo assim seguia. E os dias iam escorrendo pelos olhos e pingavam no asfalto. As alegrias e as lembranças iam ficando pelo caminho, e tudo ficou muito cinza de repente. Era sentimento demais pra ficar guardando dentro da alma. Tinha que sair por algum lugar. Saia e ia descolorindo a avenida e deixando a vista opaca as coisas bonitas que, vez ou outra, passam na frente da gente e passavam pela frente dela, mas ela nem notava.
Não era culpa de ninguém. Não era uma grande tragédia. Não era uma história muito triste ou muito longa que ela contaria pros netos com um pesar de passado frustrado. Era só um buraco. Um buraco sem graça, enorme, que ficou aberto no meio dela, e onde nada encaixava. Esse pedaço de vazio, Nossa!, como doía. Como ardia sem parar o dia inteiro... Como podia caber, dentro de um vazio, tanto, mas tanto sentimento? Ela não sabia... E, a bem dizer, era tanta coisa gritando de tudo o que faltava ali, que ela nem queria saber. Só queria que sarasse. Queria que de um dia pro outro acordasse inteira de novo. Sem nada oco, sem ausência, e sem sentimentos que sufocam a vida da gente e fazem tudo doer toda vez que a gente respira.
O tempo pode até curar todas as coisas... Mas não devolve todas. E ela sabia disso. O tempo não traz de volta as partes que se perderam e as coisas que ficaram pra trás. Põe coisas no lugar e brinca com a nossa inteligência, e a gente finge que não percebe quando ele tenta compensar aquilo que tirou de nós. Nós não somos bobos - e nem ela. Apenas fingimos que somos pra tentar sofrer menos e não ficar brigando com o tempo, o que é uma grande perda de tempo, porque ele sempre vence.
Pensa. Suspira. Conclui. Aquele buraco vai permanecer lá. E não há nada que ela possa fazer a respeito. Quem sabe, os sentimentos possam até ir embora, diminuir ou se esconder pra visitar de vez em quando, quando a cabeça estiver distraída e o coração vazio. Mas ninguém vai trazer o que falta de volta. Vai cicatrizar, e, talvez parar de doer. Talvez ela aproveite o espaço pra encher de coisas bonitas e histórias gostosas de ouvir. Talvez ela até passe a ama-lo. Talvez encontre alguém que a ame tanto, mesmo com aquele pedaço vazio por dentro, que ela nem vai lembrar com tanta frequência que tem um pedaço vazio. Mas ele sempre vai estar lá, porque alguma outra coisa nunca vai estar. E toda vez que ela lembrar que ele está lá, vai ser tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não há de se saber mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio... E o que era amor.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pra não dizer que eu não disse


Falei baixinho, ali, bem no final. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. Entre um adeus e um até logo... Entre todas as incertezas... Acho que você não ouviu, ou não deu atenção, mas eu disse, e sorri, e saí correndo pelo mundo enquanto você procurava meio tonto as palavras que eu não disse (mas talvez quisesse dizer). Sussurrei e ri da sua busca meio perdida por tudo o que já houve e você, tão bobo, nem viu.
Minha alma, que é meio criança, brinca com os seus sonhos e entrelaça seus dedos. Não tem passado e nem futuro... Só é. E fica sendo na tua memória. No meu cheiro que já não tem corpo, na blusa amarela que falta no teu armário, no par de chinelos que já não tem pés... Na minha ausência que te consome por dentro e te deixa louco pensando em quem ocupa o lado esquerdo da minha cama. E você não sabe. E não vai saber. E eu me rio toda por dentro. Ou melhor, pela parte de fora do meu lado de dentro. Porque lá dentro de dentro, eu estou chorando também. E as coisas não tem a mesma cor, não é mesmo? E a logo a gente que não queria perder nada, que dormia abraçado e queria ser feliz... É melhor rir mesmo e lembrar o que eu disse. No fim de tudo, eu disse. Mas os seus ouvidos não escutaram. Sua alma não ouviu. Você está tão surdo de tanta coisa que não importa... De tantas cordas envelhecidas de um violão que nem faz mais tanto barulho assim... Que você não ouve, sua criança boba. Quase um bebê. Quase meu bebê. Quase nosso bebê. Quase felizes para sempre... Mas um “quase para sempre” tem um cheiro tão forte de nunca mais, que eu nem quero chegar perto. Prefiro deixar curar e virar lembrança, porque “quase para sempre” doí demais. E o nosso amor não merece mais dor, bebê. Nosso amor merece a paz das boas memórias e do silêncio distante. Do imutável passado e do incognoscível futuro. Do olhar cruzado na rua que tem nome, sobrenome e endereço, mas que a gente finge não saber quem é. Da barca de terça feira e da pedra do sal de segunda. Das praias de quinta... Nosso amor merece um anúncio de “Jaz em toda paz do mundo”.  E mais nada. Porque, dentro de mim, nosso amor merece o melhor. E o melhor não acaba, e nem morre. Fica nos livros de história e nos textos incompletos. Nos trechos perdidos na minha mudez quando eu vejo um outro amor nos seus braços (e vice-versa). Nas lágrimas que caíram e (mais ainda) nas que não podem cair.
Deita na tua tristeza sem fundo. Adormece nos teus sonhos de babel. Porque por mais que você odeie, e que você não entenda, e que você não ame... Eu disse. Minha paz é grande e meu sono é tranquilo. No final da estrada, na curva sem fundo, na melancolia da ausência... Eu disse.