segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As cartas

Quero um dia enviar todas as cartas que eu tenho guardadas num nó, aqui, no meu peito, que foram escritas pelos meus silêncios. Vou jogar debaixo das portas, pelas ruas, pelos corredores e pelos espaços públicos todos. Os detalhes mais sórdidos serão a ordem do dia. As dores mais contidas vão chocar os desavisados e  todos, todos os segredos do mundo ocuparão os olhos dos passantes.
Serão milhares delas ocupando as ruas, pra quem quer e pra quem não quer ler.
Queria ver os rostos...
Alguém que nem sabe quem sou eu vai se ler nas minhas linhas e vai chorar o cansaço pungente que só nós dois sabemos que existe. A mãe zelosa vai arrancar o papel das mãos da menina inocente que ainda nem sabe que é igual a mim e vai dizer "Isso não é coisa pra você!", com um olhar de censura e constrangimento.
As folhas vão ser levadas pelo vento e, mais dia menos dia, vão alcançar os corações dos destinatários. Talvez já estejam velhos quando as notícias chegarem... Ouviram dos netos as palavras que eram pra ter sido ditas muitos anos antes. Talvez morram ali mesmo. Alguns não vão querer nem ler só de saber do remetente. Outros pegaram as cartas na ponta dos dedos, e com ternura vão desembrulhar o envelope. Vão ler com a cautela de quem lê uma carta de amor. Vão fechar os olhos, lembrar das coisas e uma lágrima, muito tímida e pueril vai lhes escorrer pelas bochechas, fazendo um desenho onde se pode ler com certa clareza a palavra nostalgia. A surpresa vai ser tão grande para alguns que a voz lhes faltará, e não sairá nem riso, nem choro, nem grito... Só silêncio. E eles entenderão o que é silenciar. Os últimos, não se surpreenderão. Vão ler como que lê no jornal que o preço da gasolina subiu e a educação vai de mal a pior. Eles já haviam me lido muitas vezes, nos meus silêncios, e eu nem percebi. Vão esboçar um sorriso de quem diz "Eu já sabia", e vão guarda-las no bolso.
Me pergunto se haverão respostas ou manifestações de qualquer espécie... Acho difícil. Quase ninguém sabe me encontrar. Meu endereço é mais secreto que todas as letras, as cores e os cheiros daquelas cartas, e esse eu estranho que mora dentro de mim faz questão de que seja. Morreram elas todas como monólogos de alguém que precisava sanar o silêncio.
Na minha covardia, torço pra que cheguem a tempo. Tomara que escapem de mim, pra que eu não tenha que esperar a coragem chegar. Ah, a coragem... Nos dizemos melhores amigas. Pintamos os mais belos quadros... Mas ela ri de mim, porque sabe que, na verdade, fujo dela como o diabo foge da cruz, e finge que não sabe que eu estou escondida de baixo do cobertor, no meio da noite, com medo dela me pegar.
Mas eu queria tanto, tanto que ela me furtasse essas frases todas. Elas enchem meu coração, transbordam pelos meus olhos e não dão lugar a minha paz.
Mas, mesmo que a coragem esqueça de mim, eu, euzinha, eu mesma, mais dia menos dia saio de baixo das cobertas e vou, com uma blusa bem engomada, laço de fita no cabelo, meia calça branca, saia jeans sem bolso e sapatos de verniz com direito a lacinho e tudo, enviar todas as cartas que eu tenho guardadas num nó, aqui, no meu peito, que foram escritas pelos meus silêncios.

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