sábado, 2 de março de 2013

Leveza


Sentia-me uma lamparina... Uma lâmpada acesa no meio do mundo de Drummond: "Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração." Uma lamparina sorridente e constante, de costas pra vida, caindo nela como se cai numa almofada macia numa tarde de verão. Como se cai em uma pilha de folhas secas, sem medo dos monstros e das histórias... Caí como quem flutua, e não anda, no meio da rua vazia e da lua cheia.
Não me importam as moscas e carros. Não cabe a mim tentar tratar de defuntos. Não... Os vivos me ocupam demais. A vida me inunda demais. Me transborda numa gargalhada larga. Se estampa com leveza num um sorriso sereno de luzes apagadas, depois de uma água gelada e de um cansaço que pesava tanto... Mas tanto... Tanto... Que sumiu. 

A rua é longa... Quase eterna. Largo a muleta que me ampara e me equilibro no meio fio. E tem platéia! Os tambores rufam. Cada passo pra longe dali, é um passo mais perto de mim. Me sinto na linha tênue que divide as decisões. E eu estou ali em cima. E fico. Até que me canso da tensão de existir e me jogo pro lado que mais me aprouver. Quando eu quiser, subo de novo, e recomeço o espetáculo. E o público vai a loucura! 
Não quero existir como um peso, desses que se sabe a medida e que se usam nas balanças pra medir outras coisas. Nem como um pêndulo torto e errante que não sabe de onde vem ou pra onde vai. Não, não... Meu caminho não é esse. Quero existir como um feixe de luz. Como um raio de sol... Como uma estrala no céu... Ou como uma lâmpada acesa, sorridente e constante. E de costas pra vida, cair nela como se cai numa almofada macia numa tarde de verão.

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