Quando pôs a mão sobre a maçaneta esperava sentir um puxão
no braço. Estava tão certa de que ia ouvir aquelas coisas – “Impulsiva!”; “Leviana!”; “Você não sabe de nada...” – que achou por bem se adiantar no personagem e fazer o que se esperava: levantar e
ir. Ir convicta de que não voltava. Ir pra voltar sempre. E ir de novo. E
voltar. Ir pra não ser nada de propósito. Porque não era. Não era covardia. Não
era medo. Nem insegurança. Era assim, e só. Se fosse pra ser alguma coisa, era paixão.
E era tanta, tanta, que eles explodiam, às vezes, só pra recolherem os caquinhos
juntos e se amarem mais depois. E nem nas brigas, nem nos gritos, faltava amor.
Mas dessa vez, depois de tanta outras, nada explodiu. Nada saiu do lugar. Um silêncio sepulcral tomou a sala. Alguma coisa acabara de morrer ali... Vazio. Sentia tudo vazio. Não havia som, e nem ela, e nem ele... Ela se viu pela primeira vez sem poder reclamar de “Nós”. As paredes se tornaram estreitas, o cobertor encurtou, a cama diminuiu, e já não havia espaço pra “Nós”. Deixavam de ser um. Agora existia ele, cansado. E ela, cansaço. Ele, que não tinha tempo pra isso. Ela, que tinha. Tinha tempo pra chorar de amor, e pra sonhar as coisas. Tinha tempo pra não saber. E ele não. Os relógios, os passos, os espaços... Tudo dessincopou.
Uma lâmina fina no meio do estômago, um aperto no peito e algumas lágrimas secas: aquele momento triste em não há absolutamente nada a ser dito, e há muita, muita coisa pra ser aceita. O coração que queria se jogar sobre ele e se esfregar contra as cinzas do que não havia mais cedeu à razão e se recolheu pequeno, onde nem ela mesma pudesse ver.
Não queria virar. Ele estaria certamente de costas, mais preocupado com a partida de futebol que com a partida dela. Não era a primeira vez que ela estragava o amor, sabia como funcionava. Não fazia força sobre a maçaneta também. Até porque não tinha. Só esperava o tempo voltar. Se voltasse, talvez não deixasse o amor morrer. Se voltasse e parasse na frente da praia e no meio das luzes, no dia que ele disse que ela era uma mulher incrível... Ou se parasse nos olhos dele na época em que dali dava pra ver um mundo inteiro mudando quando ela estava por perto; onde moravam histórias pela metade, planos, tristezas, incertezas, e até os filhos que ele nunca teria... Se parasse quando o coração dela parou porque ele estava longe, e ela fingir que não viu... Talvez fosse suficiente. Talvez. Tudo estava tão perto... Ela só queria ajeitar as coisas. E pedia, e dava mil razões, e suplicava... E suplicava... Mas o tempo não ouvia. Estava muito ocupado se preparando pra curar feridas.
Os segundos se tornaram minutos lentamente... E a vergonha de estar parada ali só não era maior que o amor que ficou sozinho dentro dela. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quisesse, ela voltava. Mas nada. A condenação da ausência ecoava pela sala. A mão que segurava a maçaneta foi se apertando, até que o silêncio foi quebrado pelo som da porta, e tudo dentro dela foi se quebrando pela rua.
Ouvia o vento soprando entre os cacos e as partes desfeitas. Deixava o rosto secar. Tentava esquecer o que deixava pra trás. Lembrava mais ainda. E chorava, chorava... Não porque deixou alguma coisa importante, ou que não devesse ter deixado... Chorava pelo que não havia mais e pelo silêncio. E também porque é muito ruim não ser mais amor, mas, pior que isso, é ser cansaço.
A rua continuava, como sempre, e a vida também. Dessa vez, continuava diferente. Queria muito ser forte e acreditar nas desculpas que ela mesma dava. Queria caber de verdade dentro do sorriso costurado no rosto. Tinha medo de querer as coisas, porque tudo que pensava em querer, de repente, não era mais. E quando as coisas não são mais, elas costumam doer. Era mais fácil, e menos doloroso, ser o que ela não queria.
Tudo ficou desengonçado por muito tempo, e a solidão conseguia incomodar mais ainda quando estava acompanhada. O coração se escondia tão bem que ninguém o via sangrando, e ela ria alto pra calar o próprio choro. Ria o tempo todo. Perdidas entre os copos de cerveja e as pontas de cigarro ficavam as lembranças. Lembrava-se da sala, e do silêncio. Lembrava-se das coisas boas também. Se perguntava se ele ainda estava de costas... Se deu uma espiadela pra vê-la partir... Se sentiu dor alguma vez. Mas nada disso importava muito. Não havia mais nada ali, e por isso ela foi. Foi quase por inteiro. Restaram alguns cacos no chão, uns pijamas no armário... E um pedaço que o coração deixou de si mesmo em cima da maçaneta, esperando pra ouvir se ele chamar. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quiser, ela volta.
Mas dessa vez, depois de tanta outras, nada explodiu. Nada saiu do lugar. Um silêncio sepulcral tomou a sala. Alguma coisa acabara de morrer ali... Vazio. Sentia tudo vazio. Não havia som, e nem ela, e nem ele... Ela se viu pela primeira vez sem poder reclamar de “Nós”. As paredes se tornaram estreitas, o cobertor encurtou, a cama diminuiu, e já não havia espaço pra “Nós”. Deixavam de ser um. Agora existia ele, cansado. E ela, cansaço. Ele, que não tinha tempo pra isso. Ela, que tinha. Tinha tempo pra chorar de amor, e pra sonhar as coisas. Tinha tempo pra não saber. E ele não. Os relógios, os passos, os espaços... Tudo dessincopou.
Uma lâmina fina no meio do estômago, um aperto no peito e algumas lágrimas secas: aquele momento triste em não há absolutamente nada a ser dito, e há muita, muita coisa pra ser aceita. O coração que queria se jogar sobre ele e se esfregar contra as cinzas do que não havia mais cedeu à razão e se recolheu pequeno, onde nem ela mesma pudesse ver.
Não queria virar. Ele estaria certamente de costas, mais preocupado com a partida de futebol que com a partida dela. Não era a primeira vez que ela estragava o amor, sabia como funcionava. Não fazia força sobre a maçaneta também. Até porque não tinha. Só esperava o tempo voltar. Se voltasse, talvez não deixasse o amor morrer. Se voltasse e parasse na frente da praia e no meio das luzes, no dia que ele disse que ela era uma mulher incrível... Ou se parasse nos olhos dele na época em que dali dava pra ver um mundo inteiro mudando quando ela estava por perto; onde moravam histórias pela metade, planos, tristezas, incertezas, e até os filhos que ele nunca teria... Se parasse quando o coração dela parou porque ele estava longe, e ela fingir que não viu... Talvez fosse suficiente. Talvez. Tudo estava tão perto... Ela só queria ajeitar as coisas. E pedia, e dava mil razões, e suplicava... E suplicava... Mas o tempo não ouvia. Estava muito ocupado se preparando pra curar feridas.
Os segundos se tornaram minutos lentamente... E a vergonha de estar parada ali só não era maior que o amor que ficou sozinho dentro dela. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quisesse, ela voltava. Mas nada. A condenação da ausência ecoava pela sala. A mão que segurava a maçaneta foi se apertando, até que o silêncio foi quebrado pelo som da porta, e tudo dentro dela foi se quebrando pela rua.
Ouvia o vento soprando entre os cacos e as partes desfeitas. Deixava o rosto secar. Tentava esquecer o que deixava pra trás. Lembrava mais ainda. E chorava, chorava... Não porque deixou alguma coisa importante, ou que não devesse ter deixado... Chorava pelo que não havia mais e pelo silêncio. E também porque é muito ruim não ser mais amor, mas, pior que isso, é ser cansaço.
A rua continuava, como sempre, e a vida também. Dessa vez, continuava diferente. Queria muito ser forte e acreditar nas desculpas que ela mesma dava. Queria caber de verdade dentro do sorriso costurado no rosto. Tinha medo de querer as coisas, porque tudo que pensava em querer, de repente, não era mais. E quando as coisas não são mais, elas costumam doer. Era mais fácil, e menos doloroso, ser o que ela não queria.
Tudo ficou desengonçado por muito tempo, e a solidão conseguia incomodar mais ainda quando estava acompanhada. O coração se escondia tão bem que ninguém o via sangrando, e ela ria alto pra calar o próprio choro. Ria o tempo todo. Perdidas entre os copos de cerveja e as pontas de cigarro ficavam as lembranças. Lembrava-se da sala, e do silêncio. Lembrava-se das coisas boas também. Se perguntava se ele ainda estava de costas... Se deu uma espiadela pra vê-la partir... Se sentiu dor alguma vez. Mas nada disso importava muito. Não havia mais nada ali, e por isso ela foi. Foi quase por inteiro. Restaram alguns cacos no chão, uns pijamas no armário... E um pedaço que o coração deixou de si mesmo em cima da maçaneta, esperando pra ouvir se ele chamar. Se ele sussurrasse, ela voltava. Se ele gritasse, ela voltava. Se ele quisesse, quando ele quiser, ela volta.

Te amo!
ResponderExcluirTe amo!
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