Prefiro acreditar que é o trânsito que está impossível. As horas no serviço, que tem passado lentas, e os trabalhos por fazer que estão atormentando o juízo. É isso... Cabeça cheia não dá espaço pra sentir saudade... Aposto que é isso sim. Não tem porque ser desgosto ou desamor... Ao contrário do gosto e do amor, essas coisas precisam de motivos. E bons. Enfim, estou certa de que se trata uma distância natural. Nada além de uma pequena ausência que não se sente, porque o tempo também é muito pequeno e a faz parecer menor ainda.
O problema mesmo é esse meu coração. Ele sim é sempre um problema! E o motivo do problema é bem simples: é que ele não tem relógio. É uma criança que não entende das coisas. Sai catando tudo pelo caminho, amando e deixando cair. É um passarinho, pequeno, frágil e muito forte que voa livre e sozinho. E que é sempre feliz, mesmo quando está triste. Que mora no vento e no céu, mas também precisa de um ninho, e gostaria de outro passarinho pra dividir (ou melhor, multiplicar) a liberdade. É uma Colombina que acha que todo dia é carnaval.
Ri de tudo, chora por tudo. Não sabe o que faz... E, quando faz, faz tudo na hora errada. Apaixona-se loucamente e ama quando e como bem entende... Mas não sabe ainda desamar. É mestre em mudar a cara do amor, em mudar suas cores. Até os sentimentos do amor ele muda! Agora, desamar... Eis um grande desafio. Quando ele resolveu se dar conta de que batia rápido, quando se pegou esperando na porta de casa antes de mim, quando percebeu que gostava do perfume e de dormir na mesma cama e de encontrar o sorriso com o meu... Meu Deus do céu... Era quase tarde. Como um quase morto, um quase rico ou um quase nada. Era quase. Como um artista circense numa corda bamba, ele vai caminhando sobre a linha tênue entre a presença e a ausência... E é quase.
É importante lembrar: ele não tem relógio e nem maldade. Só tem essa mania boba de ficar olhando e olhando, o tempo todo, porque não acredita que ainda esteja por perto, e que isso seja tão bom. Ele não tem noção de tempo, e por isso toda ausência dura muito mais que uma eternidade (pra ser mais precisa, dura uma lágrima inteira, mesmo que sejam só umas horinhas).
Eu entendo as distâncias, e o trânsito, e as obrigações. As cabeças cheias e as coisas que levaram a alguns espaços vazios no peito. Ele é que não entende nada, e fica se coçando pra encurtar os espaços e preencher com as cores dele tudo o que estiver sem cor. Explico mil vezes e ele não entende. Assim como não entende que suas espontaneidades não são sempre perdoáveis. Talvez ele nem queira entender. Talvez ele seja... Um louco! E tenha escolhido entender de outras coisas. Quem sabe, ele escolheu não saber de nada de todas essas coisas que todo mundo sabe justamente porque preferiu enlouquecer. Afinal de contas, todo mundo sabe que só assim, louco no mundo dos homens, pra conseguir entender do que ninguém entende, que é das coisas que tratam só de amor.

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