quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Buraco


Era tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não se sabia mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio e o que era perda. Os outros passavam pela rua e ela parecia permanecer, impávida, no mesmo lugar solitário o tempo o todo. Não se ouvia o som dos pássaros, nem dos passos, nem das pessoas, nem dela mesma. Ela não tinha mais som. A música parou, e ela não tinha um par pra dançar o silêncio. A vida muda seguia sem saber bem pra onde, ou porque... Mesmo assim seguia. E os dias iam escorrendo pelos olhos e pingavam no asfalto. As alegrias e as lembranças iam ficando pelo caminho, e tudo ficou muito cinza de repente. Era sentimento demais pra ficar guardando dentro da alma. Tinha que sair por algum lugar. Saia e ia descolorindo a avenida e deixando a vista opaca as coisas bonitas que, vez ou outra, passam na frente da gente e passavam pela frente dela, mas ela nem notava.
Não era culpa de ninguém. Não era uma grande tragédia. Não era uma história muito triste ou muito longa que ela contaria pros netos com um pesar de passado frustrado. Era só um buraco. Um buraco sem graça, enorme, que ficou aberto no meio dela, e onde nada encaixava. Esse pedaço de vazio, Nossa!, como doía. Como ardia sem parar o dia inteiro... Como podia caber, dentro de um vazio, tanto, mas tanto sentimento? Ela não sabia... E, a bem dizer, era tanta coisa gritando de tudo o que faltava ali, que ela nem queria saber. Só queria que sarasse. Queria que de um dia pro outro acordasse inteira de novo. Sem nada oco, sem ausência, e sem sentimentos que sufocam a vida da gente e fazem tudo doer toda vez que a gente respira.
O tempo pode até curar todas as coisas... Mas não devolve todas. E ela sabia disso. O tempo não traz de volta as partes que se perderam e as coisas que ficaram pra trás. Põe coisas no lugar e brinca com a nossa inteligência, e a gente finge que não percebe quando ele tenta compensar aquilo que tirou de nós. Nós não somos bobos - e nem ela. Apenas fingimos que somos pra tentar sofrer menos e não ficar brigando com o tempo, o que é uma grande perda de tempo, porque ele sempre vence.
Pensa. Suspira. Conclui. Aquele buraco vai permanecer lá. E não há nada que ela possa fazer a respeito. Quem sabe, os sentimentos possam até ir embora, diminuir ou se esconder pra visitar de vez em quando, quando a cabeça estiver distraída e o coração vazio. Mas ninguém vai trazer o que falta de volta. Vai cicatrizar, e, talvez parar de doer. Talvez ela aproveite o espaço pra encher de coisas bonitas e histórias gostosas de ouvir. Talvez ela até passe a ama-lo. Talvez encontre alguém que a ame tanto, mesmo com aquele pedaço vazio por dentro, que ela nem vai lembrar com tanta frequência que tem um pedaço vazio. Mas ele sempre vai estar lá, porque alguma outra coisa nunca vai estar. E toda vez que ela lembrar que ele está lá, vai ser tanto sentimento, e tanta pergunta... Que não há de se saber mais o que era ausência e o que era dor. O que era medo e o que era saudade. O que era alívio... E o que era amor.

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