quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pra não dizer que eu não disse


Falei baixinho, ali, bem no final. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. Entre um adeus e um até logo... Entre todas as incertezas... Acho que você não ouviu, ou não deu atenção, mas eu disse, e sorri, e saí correndo pelo mundo enquanto você procurava meio tonto as palavras que eu não disse (mas talvez quisesse dizer). Sussurrei e ri da sua busca meio perdida por tudo o que já houve e você, tão bobo, nem viu.
Minha alma, que é meio criança, brinca com os seus sonhos e entrelaça seus dedos. Não tem passado e nem futuro... Só é. E fica sendo na tua memória. No meu cheiro que já não tem corpo, na blusa amarela que falta no teu armário, no par de chinelos que já não tem pés... Na minha ausência que te consome por dentro e te deixa louco pensando em quem ocupa o lado esquerdo da minha cama. E você não sabe. E não vai saber. E eu me rio toda por dentro. Ou melhor, pela parte de fora do meu lado de dentro. Porque lá dentro de dentro, eu estou chorando também. E as coisas não tem a mesma cor, não é mesmo? E a logo a gente que não queria perder nada, que dormia abraçado e queria ser feliz... É melhor rir mesmo e lembrar o que eu disse. No fim de tudo, eu disse. Mas os seus ouvidos não escutaram. Sua alma não ouviu. Você está tão surdo de tanta coisa que não importa... De tantas cordas envelhecidas de um violão que nem faz mais tanto barulho assim... Que você não ouve, sua criança boba. Quase um bebê. Quase meu bebê. Quase nosso bebê. Quase felizes para sempre... Mas um “quase para sempre” tem um cheiro tão forte de nunca mais, que eu nem quero chegar perto. Prefiro deixar curar e virar lembrança, porque “quase para sempre” doí demais. E o nosso amor não merece mais dor, bebê. Nosso amor merece a paz das boas memórias e do silêncio distante. Do imutável passado e do incognoscível futuro. Do olhar cruzado na rua que tem nome, sobrenome e endereço, mas que a gente finge não saber quem é. Da barca de terça feira e da pedra do sal de segunda. Das praias de quinta... Nosso amor merece um anúncio de “Jaz em toda paz do mundo”.  E mais nada. Porque, dentro de mim, nosso amor merece o melhor. E o melhor não acaba, e nem morre. Fica nos livros de história e nos textos incompletos. Nos trechos perdidos na minha mudez quando eu vejo um outro amor nos seus braços (e vice-versa). Nas lágrimas que caíram e (mais ainda) nas que não podem cair.
Deita na tua tristeza sem fundo. Adormece nos teus sonhos de babel. Porque por mais que você odeie, e que você não entenda, e que você não ame... Eu disse. Minha paz é grande e meu sono é tranquilo. No final da estrada, na curva sem fundo, na melancolia da ausência... Eu disse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário